Coluna Desatar Nós com William Figueiredo

A OFERTA DO ESPAÇO: NA CONTRAMÃO DO MERCADO DE CURAS

Coluna Desatar Nós com William Figueiredo

Vivemos imersos em uma época governada pela lógica do consumo, onde até mesmo o sofrimento humano foi capturado pelas prateleiras do mercado. A angústia, o luto, a ansiedade e o esgotamento existencial, foram reduzidos a meros defeitos de fabricação que precisam ser consertados o mais rápido possível. Nesse cenário de medicalização da vida e da proliferação de terapias que prometem a felicidade em poucos passos, como a psicanálise se posiciona? A resposta reside em uma distinção ética fundamental: o psicanalista não vende uma cura; ele oferta um espaço.

Compreender a abissal diferença entre vender uma solução e ofertar uma escuta exige que nos debrucemos sobre as raízes da teoria psicanalítica e suas fronteiras com a filosofia. A venda, em sua essência, pressupõe a promessa de um preenchimento. O vendedor identifica uma dor e oferece o objeto que supostamente irá anestesiá-la. A oferta analítica, por outro lado, é um convite para habitar a própria dor, decifrá-la e, a partir dela, construir um novo contorno para a existência. Não se trata de silenciar o sintoma, mas de dar a ele a dignidade da palavra.

Quando Sigmund Freud inaugurou a psicanálise no final do século XIX, ele subverteu radicalmente a medicina de sua época. A psiquiatria clássica olhava para o sintoma (a paralisia histérica, a obsessão, a fobia) como um corpo estranho, uma anomalia a ser extirpada ou suprimida a qualquer custo. O movimento de Freud foi exatamente o oposto: ele ofereceu os ouvidos.

Na obra freudiana, especialmente a partir de textos como A Interpretação dos Sonhos (1900) e os Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (1905), o sintoma deixa de ser visto como um erro biológico e passa a ser compreendido como uma formação de compromisso. O sintoma é uma linguagem, uma mensagem cifrada do inconsciente. É a forma que o sujeito encontrou para lidar com desejos reprimidos e conflitos insuportáveis.

Portanto, prometer a “venda” da erradicação rápida do sintoma, para Freud, seria cometer uma violência contra o paciente. Seria calar a única via de expressão de uma dor mais profunda. O que o analista freudiano oferta é o dispositivo da associação livre. Ao convidar o paciente a deitar no divã e falar tudo o que lhe vem à mente, sem censura, o analista abre um espaço onde a repetição cega pode ser transformada em elaboração. Não se vende o retorno à “normalidade”, mas oferta-se a possibilidade de o sujeito se responsabilizar por sua própria história e pelos seus desejos.

É na obra do psicanalista francês Jacques Lacan que a crítica à venda e ao mercado ganha contornos sociais, linguísticos e filosóficos ainda mais agudos. Lacan formalizou o que chamou de A Ética da Psicanálise (Seminário 7) e, mais tarde, mapeou os laços sociais através de sua teoria dos discursos.

Para compreendermos a oferta em Lacan, precisamos olhar para a sua formulação do Discurso do Capitalista. Nesse modo de funcionamento, o sujeito é constantemente bombardeado pela promessa de que existe um objeto (seja um produto, um status, uma pílula ou um serviço terapêutico) capaz de tapar o buraco da sua angústia. O mercado prospera vendendo a ilusão de que a plenitude é alcançável e de que a falta é um erro a ser corrigido.

A psicanálise lacaniana se recusa a entrar nessa transação. A oferta do espaço analítico é operada pelo Discurso do Analista. Nele, o psicanalista não se coloca no lugar do mestre que sabe o que é melhor para o paciente, nem do vendedor que entrega o objeto apaziguador.

Em outras palavras, o psicanalista oferta um enigma. Ao invés de responder às demandas infinitas do paciente por alívio imediato (o que Lacan chamava de demanda de amor), o analista frustra essa expectativa para que o verdadeiro desejo do sujeito possa emergir. Não se vende a promessa de consertar o sujeito, porque o sujeito humano está, por definição, em formação contínua, inacabado. A oferta da clínica lacaniana é a coragem de sustentar a falta (la manque).

É no reconhecimento de que algo sempre nos escapará que reside a verdadeira potência criativa da vida. Ao final de uma análise, não encontramos um sujeito “curado” de suas falhas, mas alguém que soube fazer algo com o seu sintoma, um nó que possa enlaçar a estrutura do sujeito e lhe permiter sustentar sua existência.

Para além das fronteiras estritas da teoria psicanalítica, o movimento de ofertar o espaço encontra um eco profundo na filosofia contemporânea, especialmente na fenomenologia hermenêutica.

Para Ricoeur, a identidade humana não é algo fixo, mas uma identidade narrativa. Nós somos as histórias que contamos sobre nós mesmos, e o adoecimento psíquico muitas vezes se manifesta quando essa capacidade de narrar entra em colapso. O trauma, a depressão profunda e o esgotamento rompem a coesão da nossa própria história. Ficamos presos em uma narrativa fragmentada, repetitiva e dolorosa.

Neste contexto, o que a clínica oferta? Quando o analista oferta seu consultório, ele está criando um espaço de hospitalidade radical para a estranheza do outro. O paciente chega alienado de si mesmo, com uma linguagem que muitas vezes ele próprio não compreende: como a linguagem da angústia, do ato falho, do sonho. A oferta é o acolhimento dessa língua estrangeira.

Diferente do movimento de venda, a hospitalidade clínica permite que o sujeito seja o autor e o leitor de sua própria vida. A psicoterapia torna-se o local onde os relatos rasgados podem ser costurados novamente, onde o reconhecimento de si mesmo acontece através do olhar e da escuta do outro. O analista atua como um tradutor cuidadoso que ajuda o paciente a recuperar a posse do seu texto existencial.

O grande impasse da clínica contemporânea é que os pacientes chegam ao consultório exaustos, não apenas pelas suas neuroses infantis, mas pelo peso de uma cultura que exige performance ininterrupta. O sofrimento contemporâneo é marcado pela positividade tóxica e pela obrigação de gozar. O indivíduo sente-se culpado por estar triste, fracassado por estar ansioso e obsoleto por estar cansado.

Neste exato ponto, a diferença entre ofertar e vender torna-se uma questão de sobrevivência ética. Se o profissional de saúde mental tenta “vender” um método infalível para eliminar a dor, ele está apenas operando com as mesmas ferramentas de produtividade que adoeceram o paciente em primeiro lugar. Ele reforça a crença de que o paciente é uma máquina quebrada precisando de manutenção rápida para voltar à linha de produção da sociedade.

Ofertar o espaço analítico, portanto, é um ato de resistência. É dizer ao paciente: “Aqui, você não precisa ser produtivo. Aqui, a sua dor não será higienizada. Este é o lugar para desatar os nós cegos que a vida e a cultura apertaram ao redor do seu peito”.

A verdadeira eficácia da psicoterapia não se mede pela rapidez com que a queixa desaparece, mas pela profundidade com que a vida volta a pulsar.

O consultório, seja ele físico ou virtual, é uma fresta no tempo acelerado do mundo. Aos que se sentem sufocados pela exigência de respostas rápidas, o que a psicanálise tem a oferecer é o silêncio, o tempo, a palavra e a busca incessante por sentido. Não vendemos a ausência de tempestades; ofertamos um porto seguro onde é possível aprender a navegar.

Sempre é tempo de desatar nós e ocupar os espaços ofertados à escuta ativa!

Prof. Dr. William Figueiredo é filósofo, psicanalista e educador físico. Pós-doutor em Psicologia pela Universidade Federal de Uberlândia e doutor em Ciências da Religião. Especialista em Psicopatologia e Bem-Estar Social pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa, atua com atendimento clínico online, supervisão e assessoria em desenvolvimento humano e educacional. Atua como professor colaborador na Pós-graduação da Universidade Metodista de São Paulo. Ministra palestras, formações e workshops voltados à escuta qualificada, saúde mental e processos educativos com ênfase em: Psicanálise, Neuroeducação, Aprendizagem Tangencial, IA e Educação Socioemocional.

Sentiu que este texto conversa com você?

A jornada analítica começa com uma primeira escuta. Se você está pronto para ir além dos sintomas e entender as raízes do seu sofrimento, agende uma conversa preliminar de acolhimento (online ou presencial).

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Paula Rocha

Editora chefe do Jornal Diário do Entorno

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