O SINTOMA NO BOLSO: O DINHEIRO E A BUSCA PELA LIBERDADE
Coluna Desatar Nós com William Figueiredo

Tim Maia, foi um oráculo quando escreveu “Não Quero Dinheiro (Só Quero Amar)” em um trecho da poesia, encontramos estas estrofes:
De jeito maneira, não quero dinheiro
Quero amor sincero, isto é que eu espero
Grito ao mundo inteiro
Não quero dinheiro, eu só quero amar
O dinheiro é, sem dúvida, um dos maiores tabus da contemporaneidade. Conversamos abertamente sobre preferências políticas, dilemas amorosos e até segredos de família, mas o extrato bancário permanece guardado a sete chaves, protegido por um silêncio quase sagrado. O dinheiro é mais recalcado do que a sexualidade, ou toma o seu lugar em muitos momentos.
No entanto, o que esse silêncio esconde não é apenas um valor numérico, mas uma complexa rede de significados emocionais, fantasias inconscientes e respostas biológicas. Longe de ser um mero instrumento neutro de troca econômica, o dinheiro funciona como um espelho de nossas feridas mais profundas, de nossos medos arcaicos e da nossa busca incessante por controle.
Na perspectiva psicanalítica, o dinheiro nunca é apenas dinheiro. Ele é um equivalente universal que se presta a representar aquilo que nos falta. Sigmund Freud, já nos primórdios da psicanálise, identificou uma ligação simbólica profunda entre a retenção do dinheiro e os processos mais primitivos de controle e desenvolvimento infantil. Para o sujeito, reter ou gastar o dinheiro reproduz a fantasia primeva de controlar o que entra e o que sai, o que é oferecido ao outro e o que é guardado para si.
Avançando nessa trilha, Jacques Lacan nos mostra que o ser humano é, fundamentalmente, um sujeito atravessado pelo desejo, e o desejo é marcado por uma falta constituinte. Nunca estamos plenamente satisfeitos. O dinheiro, por sua maleabilidade simbólica, torna-se o veículo perfeito para a ilusão de que essa falta pode ser preenchida.
O erro trágico do sujeito contemporâneo é confundir a falta estrutural do ser com uma falta material.
Acreditamos que, se acumularmos um pouco mais, se comprarmos aquele objeto específico ou se alcançarmos determinado patamar financeiro, finalmente nos sentiremos “completos”. O mercado financeiro e a sociedade de consumo alimentam essa engrenagem com maestria, vendendo não produtos, mas promessas de completude. No entanto, como o desejo humano é indestrutível e desliza constantemente de um objeto para outro, a compra de hoje se transforma no vazio de amanhã, reiniciando o ciclo de insatisfação. O dinheiro passa a ser um sintoma: uma tentativa ruidosa de resolver, por meios externos, um conflito que é estritamente interno.
Se a psicanálise nos ajuda a decifrar a linguagem subjetiva do dinheiro, a neurociência nos revela a engrenagem biológica que dita nossos comportamentos imediatos diante dele. O cérebro humano, moldado por milhares de anos de evolução em ambientes de extrema escassez e perigo constante, não foi projetado para lidar com a abstração do sistema financeiro moderno. Para o nosso sistema nervoso, a falta de dinheiro não é interpretada como uma flutuação de mercado, mas como uma ameaça real e iminente à sobrevivência.
Quando nos deparamos com a possibilidade de ganho financeiro ou com a promessa de consumo, o nosso sistema de recompensa mesolímbico entra em ação. A liberação de dopamina gera uma onda de antecipação e prazer. É curioso notar que a dopamina é o neurotransmissor da busca, não da posse. Sentimos mais prazer no ato de desejar e planejar a compra do que no momento em que o objeto de fato nos pertence. Isso explica o comportamento compulsivo de acumulação ou consumo: buscamos desesperadamente repetir a descarga dopaminérgica da expectativa.
Por outro lado, quando o cenário é de perda, endividamento ou escassez, o cérebro ativa a amígdala, o centro processador do medo e da resposta de “luta ou fuga”. Sob o efeito do estresse financeiro crônico, o córtex pré-frontal perde eficiência. Entramos em um estado de “visão de túnel”, onde apenas a sobrevivência imediata importa. É por isso que, ironicamente, momentos de grande crise financeira costumam levar a decisões econômicas ainda piores e mais impulsivas. O medo da falta nos paralisa ou nos empurra para armadilhas cognitivas severas.
Compreender que o dinheiro é um sintoma psicológico e um gatilho biológico é o primeiro passo para deixar de ser refém dele. Mas como desatar esses nós na prática? A resposta não está em fórmulas mágicas de enriquecimento rápido, tampouco na negação ascética dos bens materiais. A saída exige uma postura de responsabilidade e posicionamento ético diante da própria vida.
Jean-Paul Sartre nos alertava sobre o perigo da “má-fé” (mauvaise foi), que ocorre quando o indivíduo finge não ter escolha, posicionando-se como mera vítima das circunstâncias para escapar da angústia da liberdade. Dizer “eu não consigo poupar”, “o sistema não permite que eu prospere” ou “eu preciso gastar para me sentir bem” são formas comuns de má-fé que mascaram a nossa recusa em encarar o que o dinheiro representa em nossa dinâmica subjetiva.
Para alcançar a autonomia financeira, é preciso primeiro sustentar o próprio desejo, diferenciando-o da demanda do mercado. Sustentar o desejo significa reconhecer que a falta nos constitui e que nenhum objeto comprado poderá nos preencher.
Ele passa a ocupar o seu devido lugar: o de uma ferramenta.
A música de Tim Maia ilustra perfeitamente, ao cantar “não quero dinheiro, eu quero amar”, ele rejeita o dinheiro como ilusão de completude e sustenta o desejo autêntico, mostrando que a verdadeira liberdade reside no afeto, e não no consumo.
A verdadeira liberdade financeira não se mede pelo acúmulo desmedido de dígitos na conta bancária, mas pela capacidade de usar os recursos disponíveis como um meio para viabilizar projetos de vida autênticos, escolhas conscientes e cuidado com o outro. Significa entender que a nossa relação com a carteira é, no fundo, a nossa relação com a própria existência, com os nossos limites e com a nossa finitude. Ao pacificar essa dinâmica, transformamos o dinheiro de um sintoma de angústia em um instrumento de liberdade e ação consciente no mundo.
Sempre é tempo de desatar o nó que nos prende ao dinheiro!
Prof. Dr. William Figueiredo é filósofo, psicanalista e educador físico. Pós-doutor em Psicologia pela Universidade Federal de Uberlândia e doutor em Ciências da Religião. Especialista em Psicopatologia e Bem-Estar Social pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa, atua com atendimento clínico online, supervisão e assessoria em desenvolvimento humano e educacional. Atua como professor colaborador na Pós-graduação da Universidade Metodista de São Paulo. Ministra palestras, formações e workshops voltados à escuta qualificada, saúde mental e processos educativos com ênfase em: Psicanálise, Neuroeducação, Aprendizagem Tangencial, IA e Educação Socioemocional.
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