A ÉTICA DE DESATAR NÓS
Coluna Desatar Nós com William Figueiredo

O filósofo existencialista Jean-Paul Sartre certa vez afirmou que “não importa o que fizeram de nós, mas o que nós fazemos com o que fizeram de nós”. Essa frase, embora pareça simples à primeira vista, carrega o peso de uma das maiores angústias da experiência humana: o direito de recomeçar. No consultório e na vida pública, o que percebo é que a maioria das pessoas não sofre por falta de planos para o futuro, mas por estarem com os pés acorrentados a uma fotografia antiga. Recomeçar não é apenas um desejo; é um ato ético de desatar nós que outros, e nós mesmos, apertamos ao longo de décadas.
O primeiro grande obstáculo ao recomeço não reside na nossa capacidade de mudar, mas na incapacidade do mundo de nos enxergar de forma diferente. Na filosofia hermenêutica de Paul Ricoeur, trabalhamos com dois conceitos fundamentais: a identidade Idem e a identidade Ipse. A identidade Idem é o “mesmo”, aquilo que permanece, o dado biográfico imutável. Já a identidade Ipse é o “si mesmo” em movimento, a promessa, a capacidade de ser outro.
O drama do recomeço surge quando o nosso grupo social (e aqui a família é a maior protagonista) decide nos congelar na identidade Idem. Para eles, você não é o adulto autônomo de hoje; você é a “ovelha negra”, o “problemático” ou o “inseguro” de vinte anos atrás. Tiraram uma foto do seu pior momento, molduraram-na e se recusam a aceitar que você não cabe mais naquela imagem.
Por que essa resistência é tão feroz? Porque o grupo precisa de um “bode expiatório”. Em muitos sistemas familiares disfuncionais, a mudança de um membro desorganiza o equilíbrio do todo. Se o “errado” se cura, os outros precisam olhar para as suas próprias sombras. Assim, manter você congelado no passado é uma estratégia de defesa do grupo para não ter que lidar com o presente. O direito de recomeçar, portanto, exige o que chamo de “Luto da Aprovação”: a coragem de seguir adiante mesmo que ninguém no seu passado lhe dê um “joinha” ou valide a sua transformação.
Uma vez que desatamos o nó do olhar externo, deparamo-nos com um inimigo ainda mais íntimo: a angústia. Quando decidimos ser autores da nossa própria história, a primeira sensação não é de euforia, mas de um estranho vazio. Heidegger descreveu essa experiência em sua obra Ser e Tempo. A angústia surge quando o mundo “conhecido” desmorona e nos vemos diante do Nada.
Esse Nada, contudo, não é ausência, mas excesso de possibilidade. É a folha em branco onde não há mais as pautas traçadas pelos nossos pais ou cuidadores. A liberdade causa vertigem porque ela nos devolve a responsabilidade. É nesse vácuo que as memórias fragmentadas costumam atacar. Justo quando você traça novas metas, uma lembrança ruim, uma fala impulsiva de anos atrás ou um afeto doloroso atravessam o seu dia como cacos de vidro.
Aqui, precisamos recorrer a Henri Bergson e seu conceito de “Duração”. A memória não é um arquivo morto guardado em uma gaveta; ela é um fluxo vivo. O passado não “passou”; ele vibra no presente.
Lacan dizia que a angústia é o único afeto que não engana, pois ela sinaliza que algo do Real (aquele trauma que tentamos esconder) está vindo à tona para ser reeditado. O trabalho de recomeçar exige que não apaguemos esses cacos, mas que façamos uma “hospitalidade com a angústia”. Precisamos perguntar a essa dor: “O que você está tentando me contar agora que eu finalmente sou livre para ouvir?”.
O ato final do recomeço reside na esfera da ação. Para a psicanálise, a única coisa de que se pode ter culpa é de ter cedido de seu desejo. Mas o desejo, aqui, não deve ser confundido com capricho. O desejo é o que nos constitui como sujeitos autênticos.
Frequentemente, vivemos em “má-fé” (termo sartriano) ao usarmos as expectativas dos outros como desculpa para não habitarmos nossa própria vida. “Eu não mudo porque minha mãe sofreria”, “Eu continuo nesse emprego porque meu pai se orgulha”. Ao fazermos isso, estamos transformando nossa existência em um “em-si” (como uma planta ou uma pedra), negando nossa condição de “para-si”, ou seja, de seres que se perguntam e se projetam.
Sustentar o desejo é um ato de maturidade. É entender que, entre o que fantasiamos e o que realizamos, haverá sempre um abismo. A vida real não é a arquitetura perfeita dos nossos devaneios. Quando alcançamos o objeto do nosso desejo (seja uma nova carreira ou um novo amor), ele virá com inacabamentos, com furos, com a concretude do cotidiano. Sustentar o desejo é ter a ética de não abrir mão desse projeto só porque ele não é “ideal”.
O recomeço nasce no momento em que você aceita cair da posição de “filho perfeito” ou “parceiro ideal” para ser, simplesmente, humano.
Imagine sua vida como um espaço de hospitalidade. Você tem o direito de decidir quem habita os seus pensamentos e com quais regras. Se o preço para alguém morar em sua vida é o desrespeito ao seu presente ou a constante exumação dos seus erros passados, talvez seja hora de encerrar esse contrato de hospedagem.
O direito de recomeçar é garantido pelo seu próprio ato de se autorizar. Não espere que o passado lhe peça desculpas ou que o grupo lhe dê autorização. A vida boa, como sugeriu Paul Ricoeur, é vivida “com e para os outros, em instituições justas”, mas ela começa com a autonomia do si-mesmo.
O passado é rastro; ele indica por onde passamos, mas não para onde vamos. Recomeçar é pegar a caneta das mãos de quem já não escreve a sua história e começar a redigir o parágrafo de hoje. Com ética, com angústia, mas acima de tudo, com a fidelidade ao próprio desejo. A sua vida vale muito mais do que qualquer infelicidade ou expectativa alheia.
É hora de desatar os nós e, finalmente, estar sendo.



