Coluna Desatar Nós com William Figueiredo

O IMPÉRIO DO “VOCÊ PODE TUDO”

Coluna Desatar Nós com William Figueiredo

Uma introdução ao Complexo de Telêmaco

Quem observa o comportamento nas redes sociais percebe, sem esforço, que a nossa época elegeu o seu afeto de preferência: a ansiedade. Diagnosticada em massa, medicada em larga escala e debatida exaustivamente em manuais que tentam catalogar cada tremor da alma, ela se tornou a gramática oficial do mal-estar contemporâneo. 

Essa busca por respostas diante do desamparo ganha um eco poderoso na cultura atual com o recente lançamento cinematográfico de Christopher Nolan, A Odisseia. Ao recontar o clássico épico homérico, Nolan não apenas resgata uma aventura mítica, mas expõe visualmente o nervo exposto da nossa própria era: a vertigem do homem perdido no vazio, tentando tatear o caminho de volta para casa. No entanto, ao transformarmos a ansiedade em um mero mau funcionamento biológico a ser corrigido por pílulas ou técnicas de controle, corremos o risco de calar a única coisa que tem o poder de nos salvar: a verdade que o sintoma anuncia.

Para a psicanálise, há uma torção conceitual fundamental a ser feita. O que a medicina e o discurso social chamam de “crise de ansiedade” ou “ataque de pânico” é o que o analista escuta, em sua essência, como angústia. E a angústia, como apontava Jacques Lacan, é o único afeto que não engana. Enquanto as palavras podem dissimular e as certezas podem vacilar, a angústia corta a carne; ela é o sinalizador de que o sujeito se deparou com o Real, com aquilo que desorganizou suas defesas e o convocou a dizer algo sobre o seu próprio desejo. 

Para compreender a configuração atual desse sofrimento, precisamos olhar para a mutação cultural que sofremos nas últimas décadas. A psicanálise clássica, fundada por Freud, estruturou-se sobre o Complexo de Édipo. Era a clínica do recalque, da culpa e da interdição. O sofrimento do sujeito nascia do conflito com a Lei e com o “Não” do pai autoritário que limitava o gozo. O neurótico freudiano sofria por desejar o que era proibido. 

A nossa sociedade hipermoderna, contudo, operou uma inversão perversa. O analista italiano Massimo Recalcati argumenta que não vivemos mais sob o império de Édipo. O Supereu contemporâneo mudou de tática. Ele não diz mais “você não pode” (interdição), mas sim “você tem que poder”, convocando um imperativo de desempenho e gozo tirânicos. O imperativo do Gozo, como salientou Lacan. Fomos libertados das velhas amarras tradicionais para sermos escravizados pela cobrança de sermos felizes, produtivos, visíveis, autossuficientes e bem-sucedidos em tempo integral.

Nas vitrines digitais das redes sociais e nas métricas do mercado de trabalho, a vulnerabilidade virou pecado e a pausa tornou-se sinônimo de fracasso. Não há mais um Pai que proíbe; há um mercado e um algoritmo que seduzem e exigem. A ansiedade crônica brota justamente aí: na iminência da falha. O sujeito adoece de ansiedade porque percebe que, por mais que produza, por mais que clique, por mais que corra, o Outro contemporâneo nunca se satisfaz. É a exaustão de tentar corresponder a um ideal fálico perfeito.

É nesse cenário de desorientação que a estrutura mítica teorizada por Recalcati se torna uma chave de leitura preciosa através do Complexo de Telêmaco. Na obra original, Telêmaco é o filho de Ulisses. Ao contrário de Édipo, que mata o pai, Telêmaco passa a juventude olhando para o horizonte do mar, esperando o retorno daquele que partiu para a guerra. Enquanto espera, sua casa em Ítaca é invadida pelos “procos”, pretendentes parasitários que devoram os bens da família, destroem o patrimônio e desorganizam a ordem do “lar”. Telêmaco é o retrato poético e clínico do sujeito ansioso da atualidade. 

Se o neurótico clássico vivia de costas para o mar, esmagado pelos muros da interdição familiar e da culpa, o sujeito hipermoderno é o menino na praia, contemplando o vazio do horizonte. O mar à sua frente é a falta de referências simbólicas estáveis; e, às suas costas, a sua casa está invadida pelo barulho ensurdecedor dos “procos” de nosso tempo: as notificações incessantes, a pressa mercadológica e os imperativos de consumo que ameaçam devorar sua singularidade.

A ansiedade contemporânea é, portanto, a vertigem diante desse horizonte aberto e desprovido de bússola. Quando o declínio das grandes narrativas desfaz os antigos mapas sociais que diziam quem deveríamos ser, o sujeito é lançado em um excesso de liberdade que cobra o seu preço em desamparo. A crise de ansiedade é o corpo que treme e o peito que aperta diante de um infinito sem bordas. É o pânico do sujeito sitiado por exigências externas que ele não encontra, em sua linguagem, recursos simbólicos para barrar.

Essa mudança de paradigma exige da psicanálise uma escuta renovada, atenta às marcas deste sujeito “desbussulado” sem perder de vista a singularidade do caso a caso. Diante de um paciente que chega ao consultório devastado pelo pânico, a tendência médica e social é tentar restabelecer a ordem o mais rápido possível, silenciando o sintoma com o fármaco para reconduzir o indivíduo à engrenagem produtiva. 

A psicanálise caminha na direção oposta. O analista na clínica do vazio não se posiciona como um juiz edipiano que castra, nem como um técnico que oferece ferramentas de gestão do estresse para domesticar o tempo. O papel do analista é aproximar-se desse Telêmaco na praia e ajudá-lo a sustentar o olhar para o horizonte, suportando o desamparo inicial sem ser devorado pelo barulho dos invasores.

O sintoma da ansiedade é uma crise na temporalidade. É o futuro que invade e atropela o presente porque o sujeito perdeu a capacidade de se ancorar no próprio tempo de compreender. A análise oferece justamente o que a cultura do desempenho confisca: o tempo. Um tempo que não é o do relógio produtivo, mas o tempo lógico do inconsciente, onde o sofrimento pode ser narrado, desdobrado e transformado em palavra.

A herança que Telêmaco busca no mito não é uma herança passiva, um testamento ou um palácio intocado. Herdar, em psicanálise, segundo Recalcati é um ato de invenção: é o que o sujeito decide fazer com aquilo que recebeu ou não recebeu do Outro. Quando Ulisses finalmente retorna a Ítaca, ele não surge como um rei infalível e todo-poderoso, mas disfarçado de mendigo, marcado pelas cicatrizes e pelos erros do caminho. É esse pai-testemunha que o filho abraça. O que o sujeito contemporâneo procura não é um mestre autoritário que lhe diga a verdade absoluta, mas referências que demonstrem, através da própria vida, que é possível desejar, falhar e, ainda assim, sustentar a dignidade da existência.

A travessia analítica não visa tirar o sujeito da praia para trancá-lo em um quarto seguro e anestesiado. O objetivo é permitir que ele construa o seu próprio barco e aprenda a navegar na incerteza. A ansiedade não cessa porque o mar se acalmou ou porque as exigências do mundo desapareceram, mas porque o sujeito, ao escutar o que o seu corpo gritava, tornou-se capaz de transformar a paralisia do pânico na mobilidade do seu próprio desejo. É na sustentação dessa busca singular que reside a potência política e clínica da psicanálise na atualidade.

Sempre é tempo de desatar os nós da positividade e do desempenho tóxicos!

Prof. Dr. William Figueiredo é filósofo, psicanalista e educador físico. Pós-doutor em Psicologia pela Universidade Federal de Uberlândia e doutor em Ciências da Religião. Especialista em Psicopatologia e Bem-Estar Social pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa, atua com atendimento clínico online, supervisão e assessoria em desenvolvimento humano e educacional. Atua como professor colaborador na Pós-graduação da Universidade Metodista de São Paulo. Ministra palestras, formações e workshops voltados à escuta qualificada, saúde mental e processos educativos com ênfase em: Psicanálise, Neuroeducação, Aprendizagem Tangencial, IA e Educação Socioemocional.
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Paula Rocha

Editora chefe do Jornal Diário do Entorno

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