Coluna Desatar Nós com William Figueiredo

O Outro Lado do Laço: A Mãe entre o Desejo e o Mercado

Coluna Desatar Nós com William Figueiredo

A mãe reparou que o menino

gostava mais do vazio

do que do cheio.

Falava que os vazios são maiores

e até infinitos

Manoel de Barros

Anualmente, o segundo domingo de maio apresenta-se como uma espécie de “feriado do superego”. O que deveria ser a celebração de um laço afetivo profundo e singular foi, ao longo das décadas, sequestrado por uma engrenagem impiedosa: a pressão comercial que transforma o amor em mercadoria e a gratidão em obrigação de consumo. O que está em jogo aqui não é apenas o faturamento recorde da lotação dos restaurantes, mas a gestão social da culpa.

Vivemos numa cultura que não tolera o vazio. E a maternidade, em toda a sua complexidade, é um dos campos onde o mercado mais tenta “tapar” os buracos com objetos. O problema é que, ao tentar silenciar a angústia materna com o tilintar das caixas registadoras, o sistema acaba por asfixiar o que há de mais vital na relação entre mães e filhos: a liberdade de ser imperfeito.

O mercado não vende apenas flores, joias ou perfumes; ele vende um ideal de “mãe plena”. Essa imagem idealizada é uma construção perversa. Ela mascara a realidade da exaustão, do sacrifício e, principalmente, da ambivalência que faz parte de qualquer laço humano.

Ao transformar a data num imperativo de compra, o capitalismo oferece um “objeto” para tentar tamponar uma falta que é, por natureza, constitutiva. A mensagem subliminar é clara: se existe cansaço, se existe conflito ou se existe distância, um presente caro pode restaurar a harmonia. Essa pressão atua como uma voz imperativa que retira do ato a dimensão do desejo e o coloca no campo do protocolo. 

Na clínica, observamos o rastro dessa cobrança: filhos que se sentem em dívida eterna, tentando “pagar” pelo amor recebido, e mães que se sentem profundamente insuficientes por não corresponderem ao padrão de felicidade estandardizada das redes sociais.

Para desatar o nó desta angústia, precisamos de resgatar conceitos que devolvam à maternidade a sua dignidade humana. O pediatra e psicanalista britânico Donald Winnicott introduziu uma ideia que é um verdadeiro bálsamo para o peso desta época: a mãe suficientemente boa.

Este conceito é o oposto direto da “mãe ideal” do marketing. Enquanto o mercado exige uma presença total e infalível, Winnicott ensina-nos que a infalibilidade é, na verdade, um entrave ao desenvolvimento saudável do psiquismo. Para entender isto, precisamos de olhar para o início da vida.

Nos primeiros meses, o bebê vive num estado de dependência absoluta. A mãe entra num estado de “Preocupação Materna Primária”, uma sensibilidade quase telepática que lhe permite atender às necessidades do recém-nascido de forma imediata. Para o bebê, isso cria uma “ilusão de onipotência”: ele sente que o mundo é uma extensão da sua vontade. Se ele tem fome, o seio aparece; se tem frio, o aconchego surge.

No entanto, a saúde psíquica exige que essa ilusão seja quebrada. E é aqui que a “falha” se torna um ato de amor.

A “mãe suficientemente boa” é aquela que, após estabelecer essa base de segurança, começa a falhar de forma gradual e suportável. Não estamos a falar de negligência ou de trauma, mas de pequenos lapsos: o atraso de alguns minutos para a mamada, a incapacidade de adivinhar exatamente por que o bebê chora, ou o momento em que a mãe precisa de se ausentar para cuidar de si mesma.

É precisamente nesse “furo” que o pensamento nasce. Se a mãe fosse perfeita e respondesse a tudo instantaneamente para sempre, a criança nunca perceberia que ela e a mãe são seres distintos. O bebê ficaria aprisionado num espelhamento sem fim, sem espaço para desenvolver a sua própria autonomia.

Winnicott destaca que, ao encontrar esse limite na mãe, a criança é convocada a usar a sua própria atividade mental para compensar a falta. Ela começa a simbolizar. É nesse vácuo que se localiza o que chamamos de “Espaço Potencial”. É onde a criança cria o seu primeiro símbolo de independência (o objeto transicional, como um cobertor ou um brinquedo). Em termos simples: a falha da mãe é o que permite que a criança comece a existir por conta própria. Sem o furo, não há espaço para o Self; há apenas a submissão.

Quando a cultura e o mercado insistem na ideia da mãe que deve ser “tudo” para o filho, eles estão a empurrar as famílias para uma patologia que Winnicott denominou de Falso Self.

Se a mãe não consegue falhar, ou se a pressão social é tão esmagadora que ela se sente obrigada a manter uma máscara de perfeição, a criança aprende que, para ser amada, precisa de se moldar inteiramente às expectativas do Outro. A criança torna-se “excessivamente adaptada”, cumprindo todas as regras, sendo o “orgulho da família”, mas ao custo de enterrar a sua espontaneidade.

O Falso Self é uma armadura de conformidade. É o indivíduo que vive para satisfazer os desejos alheios, sentindo um vazio interior porque o seu Self Verdadeiro. A celebração comercial do Dia das Mães, muitas vezes, é a apoteose do Falso Self: todos sorriem para a fotografia, mas poucos se permitem falar da exaustão, do luto pelas versões de si mesmas que as mães deixaram para trás, ou da dificuldade real de crescer.

Desatar os nós desta data exige que olhemos para a maternidade para além do espetáculo. É preciso considerar o que na experiência de cada mulher resiste à padronização social. A mãe real é atravessada por contradições. Ela ama, mas também se irrita; ela cuida, mas também deseja ser cuidada em esferas que nada têm a ver com os filhos.

Reconhecer essa humanidade é o primeiro passo para aliviar o peso da culpa. Se o amor é um dom, ele não pode ser uma transação comercial. Quando compramos um presente por obrigação social para “compensar” a nossa ausência ou para cumprir um script, estamos a reforçar a economia da dívida. O verdadeiro laço, contudo, opera na economia do desejo.

Que o Dia das Mães, não seja sobre o objeto que tapa o furo, mas sobre a valorização do próprio furo. Que possamos celebrar as mães que cansam, as mães que se distraem, as mães que têm carreiras, sonhos e desejos que não orbitam apenas em torno da prole.

São essas falhas que permitem que os filhos respirem. São esses limites que ensinam às crianças que o mundo não gira em torno delas, preparando-as para a alteridade e para a vida real.

Neste feriado do superego, escolhemos a ética do desejo sobre a ética do consumo. Desatar o nó da pressão comercial é permitir que o encontro entre gerações ocorra na verdade do afeto, e não na rigidez do protocolo. 

É sempre tempo de liberdade de ser, finalmente, suficientemente humano.

Prof. Dr. William Figueiredo é filósofo, psicanalista e educador físico. Pós-doutor em Psicologia pela Universidade Federal de Uberlândia e doutor em Ciências da Religião. Especialista em Psicopatologia e Bem-Estar Social pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa, atua com atendimento clínico online, supervisão e assessoria em desenvolvimento humano e educacional. Atua como professor colaborador na Pós-graduação da Universidade Metodista de São Paulo. Ministra palestras, formações e workshops voltados à escuta qualificada, saúde mental e processos educativos com ênfase em: Psicanálise, Neuroeducação, Aprendizagem Tangencial, IA e Educação Socioemocional.
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Paula Rocha

Editora chefe do Jornal Diário do Entorno

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