POR QUE ABANDONAR SUAS METAS IMPOSSÍVEIS PODE SER A SUA SALVAÇÃO MENTAL
Coluna Desatar Nós com William Figueiredo

Chegamos ao fim de janeiro e você já “falhou” nas promessas do Réveillon? A psicopatologia fenomenológica explica por que esse fracasso é necessário e como transformar a culpa em uma vida autêntica (e não apenas idealizada).
Olhe para o calendário. Estamos na última semana de janeiro.
Há menos de trinta dias, vestimos branco, pulamos ondas e desenhamos em nossas mentes uma versão idealizada de nós mesmos para o ano novo: mais magros, mais ricos, mais calmos, mais leitores, mais disciplinados.
Hoje, a realidade é bem diferente. As academias, lotadas na primeira semana, já começam a esvaziar. O livro comprado está na cabeceira, intocado. A dieta rigorosa sucumbiu à primeira pizza de sexta-feira. E, no lugar da euforia dos fogos de artifício, resta a Ressaca de Janeiro.
É um misto de culpa, vergonha e a velha sensação de “eu não tenho jeito mesmo”.
Também é uma época boa na clínica, de retomado dos processos, porque os pacientes voltam às sessões, já que descobriram que a virada do ano não faz milagres.
Mas, como especialista em Psicopatologia Fenomenológica, tenho uma notícia para você: E se esse fracasso não for um defeito, mas um sinal de saúde? E se desistir dessas metas for a coisa mais sã que você pode fazer agora?
A fenomenologia estuda como vivemos a nossa experiência no mundo. E uma das maiores fontes de sofrimento humano é o descompasso entre a Existência Autêntica e a Existência Inautêntica.
Para a Psicopatologia Fenomenológica, o colapso das metas de janeiro não é apenas um erro de planejamento, mas uma crise que revela como nos relacionamos com os quatro existenciais básicos:
Temporalidade: Sofremos porque encaramos o tempo como um recurso linear a ser dominado (o cronograma), ignorando o tempo vivido. Janeiro nos ensina que não podemos pular para o futuro (o “eu ideal”) sem habitar e respeitar o ritmo do presente.
Intersubjetividade: Nossas metas raramente são solitárias; elas são moldadas pelo olhar do Outro. O fracasso muitas vezes ocorre porque estamos tentando performar para uma plateia imaginária (sociedade, família), vivendo um desejo que não é nosso.
Corporeidade: O corpo não é uma máquina submissa à vontade da mente (dualismo cartesiano); ele é nosso ponto de vista no mundo. Quando seu corpo “trava” ou rejeita a dieta rigorosa, ele exerce uma sabedoria pré-reflexiva, recusando-se a ser tratado como objeto de modelagem.
Identidade: A frustração revela que a identidade não é algo fixo que se “conserta”, mas um projeto em constante vir-a-ser. Aceitar a desistência é aceitar a fluidez da própria identidade, parando de lutar contra quem se é para começar a ser quem se pode ser, o que chamamos tecnicamente de ipseidade.
Por este motivo, as resoluções de Ano Novo, na maioria das vezes, pertencem ao campo da inautenticidade. Elas não nascem de quem você é, mas de quem você acha que deveria ser para agradar o olhar do Outro (a sociedade, o Instagram, a família).
Você prometeu acordar às 5h da manhã não porque seu corpo pede isso, mas porque leu que CEOs de sucesso fazem isso. Você prometeu ler um livro por semana não por desejo de saber, mas para performar intelectualidade.
Essas metas são roupas que não cabem no seu corpo psíquico. Quando você “falha” em janeiro, é o seu organismo gritando: “Pare de tentar me transformar em alguém que eu não sou!”. A ressaca de janeiro é o choque de realidade necessário para que a fantasia desmorone.
Martin Heidegger, filósofo alemão, fazia uma distinção entre o nível Ôntico e o nível Ontológico.
Nível Ôntico: São as coisas, os entes, as listas de tarefas. “Emagrecer 5kg”, “Parar de fumar”, “Ler 10 livros”. É a gestão da superfície.
Nível Ontológico: É o Ser. É a estrutura de sentido da sua vida. “Por que eu como compulsivamente?”, “De que ansiedade o cigarro me protege?”, “Qual vazio eu tento preencher com a produtividade?”.
O problema de janeiro é que tentamos resolver questões ontológicas com soluções ônticas.
Você tenta curar sua angústia existencial (ontológico) com uma dieta low-carb (ôntico). Não funciona. A estrutura do seu ser permanece a mesma, e ela vai sabotar a dieta porque a comida tem uma função emocional que não foi tratada.
O fracasso de janeiro é a prova de que não se reforma uma casa que está com a fundação rachada apenas pintando as paredes.
Desistir das metas inautênticas é um ato de coragem. É admitir: “Isso não sou eu. Isso é uma imposição externa”.
Ao desistir da fantasia de “Super-Homem” ou “Mulher-Maravilha” que você criou no Réveillon, você abre espaço para encontrar o humano falho, porém real, que existe aí.
A psicanálise não serve para te ajudar a cumprir metas impossíveis. Ela serve para te ajudar a separar o que é Desejo (aquilo que move a vida) do que é Demanda (aquilo que os outros esperam de você).
Quando você persegue o seu Desejo, a disciplina deixa de ser um peso e vira consequência. Você não precisa se forçar a fazer o que ama; você faz porque faz sentido.
Se você está sentindo essa “ressaca”, não a desperdice com autocrítica. Use-a como diagnóstico.
O que sobrou depois que a empolgação passou? O que persiste? Se a vontade de mudar continua, mas o método falhou, então o problema não é a sua “força de vontade”, é a sua estratégia.
Convido você a entrar em fevereiro sem listas gigantescas. Entre com perguntas. Em vez de afirmar “vou emagrecer”, pergunte: “do que eu tenho fome?”. Em vez de afirmar “vou trabalhar mais”, pergunte: “do que eu estou fugindo?”.
Para responder a essas perguntas, o Google não serve. O ChatGPT não serve. Só serve a escuta qualificada de quem suporta o silêncio e o tempo da sua resposta.
Que a sua desistência de janeiro seja o solo fértil onde, finalmente, algo verdadeiro possa nascer em fevereiro.
É sempre tempo de desatar nós e ser você mesmo, autenticamente!
Prof. Dr. William Figueiredo é filósofo, psicanalista e educador físico. Pós-doutor em Psicologia pela Universidade Federal de Uberlândia e doutor em Ciências da Religião. Especialista em Psicopatologia e Bem-Estar Social pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa, atua com atendimento clínico online, supervisão e assessoria em desenvolvimento humano e educacional. Atua como professor colaborador na Pós-graduação da Universidade Metodista de São Paulo. Ministra palestras, formações e workshops voltados à escuta qualificada, saúde mental e processos educativos com ênfase em: Psicanálise, Neuroeducação, Aprendizagem Tangencial, IA e Educação Socioemocional.
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A jornada analítica começa com uma primeira escuta. Se você está pronto para ir além dos sintomas e entender as raízes do seu sofrimento, agende uma conversa preliminar de acolhimento (online ou presencial).
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