Coluna Desatar Nós com William Figueiredo

Lolita em 2025: O perigoso espetáculo da infância nas redes sociais

Coluna Desatar Nós com William Figueiredo

Era década de 90, tínhamos a impressão de que tudo poderia acontecer na televisão. As emissoras e seus programas tinham programações bizarras, e que em sua maioria refletem o senso comum. O que neste caso significava ver crianças descendo na “boquinha da garrafa”. 

Isso não mudou muito, só que agora temos um problema muito maior que é o fato de que qualquer pessoa com um smartphone pode produzir conteúdo e subir para as plataformas de vídeo da rede social.

Milhões de visualizações e as crianças expostas agora de forma caseira.

Não que antes isso não acontecia, nos programas de TV, é que agora é uma produção em grande escala. 

As redes sociais se tornaram um palco para a vida de milhões de pessoas, e as crianças, antes protegidas por uma barreira de privacidade, agora são as estrelas de um show que nem sempre entendem. A adultização de crianças nas plataformas digitais se transformou em uma polêmica central, levantando questões sobre os limites entre a exposição familiar e a exploração infantil, a proteção da inocência e as pressões de uma vida online. Um verdadeiro “Show de Truman” com todo tipo de exposição que se possa fantasiar. 

O que ocorre com “Lolita”, o romance de Vladimir Nabokov, que se relaciona diretamente com o tema ao apresentar uma narrativa perturbadora sobre a sexualização e o desejo adulto projetado em uma figura infantil. O protagonista, Humbert Humbert, projeta sua fantasia de “ninfeta” na jovem Dolores Haze, negando a ela a complexidade e a subjetividade de sua própria infância.

Humbert Humbert se comporta como um voyeur e um narcisista que manipula a imagem e a vida de Lolita para sua própria satisfação. A polêmica da adultização nas redes sociais mostra um fenômeno semelhante, onde a criança é transformada em um objeto de consumo e de desejo, seja este voyeurístico, narcísico ou simplesmente capitalista. 

Em ambos os casos, a infância é negada e a criança é usada como uma tela para a projeção de fantasias adultas, privando-a de sua autonomia e de seu direito de ser simplesmente criança.

O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) não possui um artigo específico que trate diretamente do termo “adultização de crianças”. No entanto, a prática é ilegal e condenada com base nos princípios e artigos gerais do estatuto, que garantem a proteção integral da criança e do adolescente.

As denúncias de adultização e erotização de crianças em redes sociais são investigadas por órgãos como o Ministério Público e o Conselho Tutelar. Eles acionam o ECA para avaliar se a exposição da criança fere sua integridade e seus direitos. Os pais ou responsáveis, mesmo que agindo sob a desculpa do “sharenting” (o hábito de compartilhar a vida dos filhos), podem ser responsabilizados caso a exposição seja considerada prejudicial.

O youtuber e influenciador Felca viralizou recentemente com um vídeo no Youtube sobre “adultização”, em que ele denuncia a exposição sexualizada de crianças. E este vídeo abriu a discussão para a opinião pública, e tem sido assunto em muitos meios de comunicação e reacts na plataforma.

O fenômeno se manifesta de diversas formas. Em um extremo, estão os “mini-influenciadores”, crianças que, com o auxílio de seus pais, promovem produtos, criam conteúdo com roteiros elaborados e constroem uma imagem pública que pouco se assemelha à de uma infância típica. Elas vestem roupas adultas, imitam trejeitos de celebridades e, muitas vezes, parecem ensaiadas para um universo de consumismo e fama.

Em outro ponto, está a exposição diária e, por vezes, inadvertida. Pais que compartilham rotinas, desafios, momentos de birra ou de alegria de seus filhos podem estar, sem perceber, construindo um “personagem” online que foge do controle da criança. A busca por likes e a necessidade de engajamento transformam o cotidiano familiar em um espetáculo, onde a infância é moldada para agradar ao público, aqui voltamos a Truman!

A criança, submetida a um mundo de críticas, elogios e expectativas digitais, pode ter sua autoestima e sua identidade moldadas por fatores externos, em vez de se desenvolver de forma natural. A diferenciação entre a vida real e a persona online se torna tênue, e a pressão por performance pode gerar ansiedade e outras questões de saúde mental.

A polêmica não se restringe à esfera familiar. Ela envolve plataformas digitais, que lucram com o engajamento desses perfis, e marcas, que veem na inocência das crianças uma poderosa ferramenta de marketing. A ausência de uma regulamentação clara torna o cenário ainda mais complexo. Quem é o responsável por proteger a infância nesse ambiente? Os pais, as empresas de tecnologia ou o Estado?

Uma análise mais profunda, sugere que o fenômeno vai além das pressões sociais e do marketing. A pulsão da visão, descrita por Freud, nos lembra que o ato de ver e ser visto está ligado ao prazer. A exposição de crianças nas redes sociais satisfaz tanto o prazer voyeurístico de quem observa quanto o prazer exibicionista de quem expõe, transformando o “Eu” infantil em um objeto de desejo e reconhecimento. A inocência da criança é então usada como uma tela para projeções e fantasias adultas, levantando a incômoda questão de quão inconscientemente a sociedade contemporânea utiliza a imagem da infância para satisfazer seus próprios anseios e desejos mais profundos e velados.

Por outro lado, essa discussão revela que a adultização de crianças nas redes sociais não é apenas um espetáculo, mas uma complexa encenação do desejo e da falta. A criança, para Lacan, é o objeto do desejo do Outro (os pais) e, ao ser exposta, se torna o objeto ideal que apazigua a angústia parental. O ‘like’ e a validação do público funcionam como uma espécie de ‘espelho digital’ que reforça o narcisismo dos pais, fazendo com que a criança seja usada para preencher a falta que o sujeito sente em si mesmo. 

Dessa forma, a imagem de perfeição e maturidade artificialmente construída para o público das redes sociais nega à criança a possibilidade de ser um sujeito barrado, um ser em formação com suas próprias falhas e contradições, aprisionando-a em uma persona que, paradoxalmente, pode dificultar o desenvolvimento de sua verdadeira subjetividade.

Não se trata de proibir a presença de crianças na internet, mas de repensar as fronteiras. É fundamental questionar o que é uma exposição saudável e o que se configura como uma exploração, mesmo que inconsciente. O debate sobre a adultização de crianças nas redes sociais nos convida a refletir sobre o verdadeiro significado de infância na era digital e a buscar caminhos para garantir que, por trás das telas, a criança possa simplesmente ser criança. 

É sempre tempo de desatar nós! 

Prof. Dr. William Figueiredo é filósofo, psicanalista, pós-doutor em Psicologia pela Universidade Federal de Uberlândia e doutor em Ciências da Religião. Especialista em Psicopatologia e Bem-Estar Social pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, atua com atendimento clínico online, supervisão e assessoria em desenvolvimento humano e educacional. É também professor colaborador na Universidade Metodista de São Paulo e no Instituto Ânima, como formador em Educação Socioemocional. Ministra palestras, formações e workshops voltados à escuta qualificada, saúde mental e processos educativos.

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