Coluna Desatar Nós com William Figueiredo

O resgate do humano: A psicopatologia fenomenológica como resistência à era do diagnóstico-algoritmo

Coluna Desatar Nós com William Figueiredo

Vivemos em uma época de saturação diagnóstica. Nunca se falou tanto em saúde mental e, paradoxalmente, talvez nunca tenhamos compreendido tão pouco sobre o sofrimento psíquico em sua dimensão singular. O cenário atual é dominado pela lógica do “checklist”: se o sujeito apresenta cinco de nove critérios listados no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), ele recebe um código, um protocolo medicamentoso e uma identidade social muitas vezes imutável.

No entanto, há um hiato perigoso nessa abordagem. Ao reduzir a dor humana a um desequilíbrio neuroquímico ou a uma falha funcional, a psiquiatria convencional, de base puramente biológica, comete um erro epistemológico grave: ela trata o sofrimento como um objeto externo, algo que o sujeito “tem”, em vez de compreender como o sujeito “é” naquela experiência.

Neste sentido que se ergue a Psicopatologia Fenomenológica. Longe de ser apenas uma teoria acadêmica, ela é um ato de resistência ética. Ela nos convida a sair da frieza dos números e retornar “às coisas mesmas”, como propunha Edmund Husserl, resgatando a dignidade do sofrimento como uma forma possível de existir no mundo.

O DSM e a CID (Classificação Internacional de Doenças) cumprem um papel burocrático e estatístico importante, inclusive por incluir o indivíduo no SUS e na rede de serviços, mas falham miseravelmente na tarefa de compreender a existência. O médico olha para o “que” o paciente tem (o ente), mas ignora o “como” o paciente vive (o ser). Para a fenomenologia, um delírio ou uma crise de pânico não são “erros de processamento”. 

São tentativas de o sujeito manter um mundo minimamente habitável quando sua estrutura de sentido desmoronou. Quando o diagnóstico é puramente biológico, a cura é puramente química. Ignora-se que a angústia pode ser uma reação legítima a um mundo hostil.

A principal ferramenta da Psicopatologia Fenomenológica é a Epoché (ou redução fenomenológica). Trata-se do esforço clínico de “colocar entre parênteses” as nossas teorias prévias e os rótulos diagnósticos para escutar o fenômeno em sua pureza. Quando um paciente diz que “o tempo parou”, o fenomenólogo não anota “alucinação temporal”; ele pergunta como é viver em um mundo onde o futuro não se abre mais. 

A abordagem fenomenológica na psicopatologia não é monolítica; ela é um mosaico construído por mentes que uniram a filosofia à medicina: Em 1913, Karl Jaspers publicou Psicopatologia Geral, obra que fundou a disciplina. 

Ele introduziu a distinção fundamental entre Explicar (buscar causas físicas, como um tumor ou uma alteração sináptica) e Compreender (apreender o sentido psíquico, a conexão de motivos que leva o sujeito a sentir o que sente). Jaspers ensinou que o ser humano é um “todo” que nunca pode ser totalmente objetivado.

Influenciado profundamente por Martin Heidegger, Binswanger propôs a Daseinsanalyse (Análise do Dasein). Para ele, o transtorno mental é uma “forma de ser-no-mundo”.  Minkowski é o grande mestre da Temporalidade. Em sua obra O Tempo Vivido, ele argumenta que a essência da depressão e da melancolia não é a tristeza, mas o “retardamento do tempo vivido”. O sujeito melancólico vive em um presente estagnado, onde o “élan vital” (impulso vital) cessou, tornando o futuro uma parede intransponível. 

No Brasil, um exemplo, é Dr. Guilherme Messas, integrando valores éticos e estrutura clínica ao diagnóstico humanizado a partir de um olhar dialético-fenomenológico. Além da Sociedade Brasileira de Psicopatologia Fenômeno-Estrutural (SBPFE), atualmente presidida pela Dra. Daniela Ceron-Litvoc.

Esse que vos escreve também tem suas contribuições na área, tanto clinicamente como através da transmissão em cursos, publicações acadêmicas etc.

Para compreender o sofrimento sem recorrer ao DSM, a fenomenologia analisa a estrutura da existência através de cinco categorias fundamentais:

  • Temporalidade (Tempo Vivido): Como o sujeito se projeta no futuro? O tempo voa, para ou retrocede? Na ansiedade, o futuro invade o presente de forma catastrófica. Na depressão, o passado é uma âncora que impede o movimento.
  • Espacialidade (Espaço Vivido): O mundo é amplo e convidativo ou opressor e claustrofóbico? Um agorafóbico não tem medo de “espaços abertos” no sentido físico, mas sim da perda de um solo seguro onde possa habitar.
  • Corporeidade (Corpo Próprio): O corpo é vivido como uma potência de agir ou como um fardo, uma “coisa” pesada e estranha? Na anorexia, por exemplo, o corpo vivido (subjetivo) entra em conflito radical com o corpo orgânico (objetivo).
  • Intersubjetividade (O Outro): Como o sujeito se relaciona com o mundo das pessoas? Há um “nós” compartilhado ou o outro é vivido apenas como um vigilante ou uma ameaça?
  • Identidade (Ipseidade e Mesmidade): O “Quem” da Existência diferente da psicologia tradicional, que muitas vezes busca uma “identidade” fixa ou um “eu” substancial, a fenomenologia — profundamente influenciada por pensadores como Paul Ricoeur — propõe uma distinção vital para compreender o sofrimento: a diferença entre a Mesmidade (Idem) e a Ipseidade (Ipse).

Mesmidade (Idem): Refere-se àquilo que é permanente em nós. É o “o quê” da pessoa.

Ipseidade (Ipse): Refere-se ao “quem”. É a capacidade do sujeito de manter-se fiel a si mesmo em uma promessa. A ipseidade é o “si-mesmo” como um processo dinâmico e relacional.

Na atualidade, a Psicopatologia Fenomenológica é mais necessária do que nunca. Vivemos uma crise de sentido que a medicação, sozinha, não pode resolver. O aumento exponencial de casos de Burnout, ansiedade e depressão em jovens não é apenas uma “epidemia biológica”, mas um sintoma de uma sociedade que precarizou o trabalho e a esperança.

A Psicopatologia Fenomenológica não nega a importância da biologia, mas se recusa a ser escrava dela. Ela devolve ao paciente o lugar de sujeito. No consultório fenomenológico, o diagnóstico não é o fim da conversa (“você tem depressão, tome este comprimido”), mas o início de uma investigação compartilhada: “como você está vivendo o seu tempo e o seu espaço?”. Ao final a fenomenologia é, em última análise, a ciência da hospitalidade existencial. 

Sempre é tempo de ir além da CID, existe um mundo pedindo para ser compreendido!

Sobre o Autor:
Prof. Dr. William Figueiredo é filósofo, psicanalista e educador físico. Pós-doutor em Psicologia pela Universidade Federal de Uberlândia e doutor em Ciências da Religião. Especialista em Psicopatologia e Bem-Estar Social pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa, atua com atendimento clínico online, supervisão e assessoria em desenvolvimento humano e educacional. Atua como professor colaborador na Pós-graduação da Universidade Metodista de São Paulo. Ministra palestras, formações e workshops voltados à escuta qualificada, saúde mental e processos educativos com ênfase em: Psicanálise, Neuroeducação, Aprendizagem Tangencial, IA e Educação Socioemocional.
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Paula Rocha

Editora chefe do Jornal Diário do Entorno

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