Coluna Desatar Nós com William Figueiredo

PARA SER ‘MUITO HOMEM’, ENSINA-SE A SER ‘POUCO HUMANO

Coluna Desatar Nós com William Figueiredo

Vivemos um tempo de binarismos ruidosos. Nas arenas digitais, proliferam manuais de conduta que prometem resgatar uma suposta “essência” do masculino ou do feminino, como se o gênero fosse uma verdade biológica imutável, inscrita no DNA e imune à cultura. No entanto, ao observarmos as patologias do laço social contemporâneo (o isolamento emocional masculino, a violência e a dificuldade de homens em nomear seus afetos), percebemos que essa “essência” é, na verdade, uma armadura que sufoca a própria condição humana. Para desatar esses nós, precisamos convocar vozes que, embora distintas, convergem para uma mesma urgência: a de que o ser humano não é um ponto de partida, mas um projeto em constante construção.

A máxima de Simone de Beauvoir em O Segundo Sexo, “não se nasce mulher, torna-se mulher”, costuma ser lida como o manifesto fundante do feminismo moderno. Contudo, sua potência ontológica é universal. 

“Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam de feminino.” (BEAUVOIR, 1970)

 

Se a mulher se torna mulher ao adotar (ou ser capturada por) uma cultura que define seus papéis, o mesmo processo ocorre com o homem. Ninguém nasce “homem” no sentido social do termo; nasce-se um corpo biológico sobre o qual a cultura projeta um script rígido de negações.

 

Tornar-se homem, na nossa civilização, tem sido historicamente um exercício de subtração. Para ser “muito homem”, ensina-se que é preciso ser “pouco humano”. Subtrai-se a lágrima, subtrai-se o cuidado, subtrai-se a vulnerabilidade. Se a feminilidade foi construída sob o mito da passividade, a masculinidade foi erguida sob o mito da invulnerabilidade. O problema é que a vulnerabilidade não é uma característica feminina; ela é o traço mais elementar da finitude humana. Quando negamos ao homem o direito ao afeto e ao carinho, não estamos preservando sua virilidade, estamos amputando sua humanidade.

Para compreender como essa engrenagem funciona no cotidiano, é preciso recorrer ao conceito de performatividade de Judith Butler. É comum confundirmos “performance” com “desempenho” (o achievement da lógica neoliberal: ser o melhor, o mais forte, o mais produtivo). Mas, na perspectiva antropológica e na teoria de Butler, a performance é uma ação simbólica, uma teatralização da própria experiência.

 

“O gênero é a estilização repetida do corpo, um conjunto de atos repetidos no interior de um quadro regulador altamente rígido, que se cristaliza no tempo para produzir a aparência de uma substância, de um tipo natural de ser.” (BUTLER, 2003)

 

O gênero não é o que somos, é o que fazemos repetidamente. É um conjunto de atos, gestos e falas que, de tanto serem reiterados, criam a ilusão de uma substância interna natural. O homem que se recusa a abraçar um amigo ou a admitir um medo não está seguindo sua natureza; ele está performando um papel para uma plateia invisível que o vigia constantemente. A masculinidade torna-se, assim, uma performance de vigilância: o homem vigia a si mesmo para garantir que nenhum elemento “estranho” (leia-se: humanizado/afetivo) escape pelas frestas de sua armadura. A ação aqui é símbolo; cada gesto de dureza é um sinal emitido ao grupo para reafirmar o pertencimento a uma casta que não se permite falhar.

Nesse cenário, a psicanálise de Jacques Lacan traz uma contribuição provocativa e frequentemente mal compreendida: a afirmação de que “A Mulher não existe”. Com isso, Lacan não nega a existência dos seres humanos que se identificam como mulheres, mas aponta que não há um significante universal, uma essência única ou uma definição totalizante do que é “ser mulher”. O feminino escapa à apreensão total da linguagem; ele é, por definição, alteridade e abertura.

“A Mulher não existe. […] Não existe A Mulher, artigo definido para designar o universal. Não existe A Mulher porque, em sua essência própria, ela não é toda.” (Lacan, 1985)

Quando trazemos essa ideia para o diálogo sobre masculinidade, percebemos que o homem, muitas vezes, tenta compensar essa inexistência de uma essência feminina criando um “ideal de homem” que seja o oposto absoluto de qualquer coisa que ele fantasie como sendo o feminino. Se “A Mulher” não existe como essência, a “Masculinidade” também não existe como um dado da natureza. Ambos são construções que tentam velar o vazio e o desamparo inerentes ao sujeito.

O homem que se agarra ao desempenho heroico e reprime seus afetos está, no fundo, tentando fugir do seu próprio desamparo. Ele usa a norma de gênero como um fetiche para esconder sua castração simbólica. Ao não aceitar que o feminino (enquanto abertura ao outro, enquanto cuidado e afeto) habita também o seu próprio ser, o homem torna-se escravo de uma imagem especular de dureza que o isola da vida.

É urgente descolonizar os afetos. O cuidado, a escuta, a capacidade de lidar com as próprias emoções e de expressar o amor não são propriedades exclusivas de um gênero. São, na verdade, os elementos que nos permitem sustentar a existência em comum.

A cultura das redes sociais, com seus “redpills” e defensores de uma masculinidade arcaica, tenta vender a ideia de que a humanização do homem é uma fraqueza. É o contrário. A verdadeira força reside na capacidade de desatar os nós dessas performances automáticas.

Aprender a falar sobre o que se sente, aprender a acolher o outro e a ser acolhido, não torna um homem “menos homem”. Torna-o, finalmente, um sujeito. Se “não se nasce homem, torna-se homem”!

Que possamos escolher um tornar-se que não exija o sacrifício da sensibilidade. 

Desatar nós em sua plenitude afetiva, ética e humana!

BEAUVOIR, Simone de. O Segundo Sexo: Fatos e Mitos. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1970.

BUTLER, Judith. Problemas de Gênero: Feminismo e Subversão da Identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.

LACAN, Jacques. O Seminário, livro 20: mais, ainda. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985.

Prof. Dr. William Figueiredo é filósofo, psicanalista e educador físico. Pós-doutor em Psicologia pela Universidade Federal de Uberlândia e doutor em Ciências da Religião. Especialista em Psicopatologia e Bem-Estar Social pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa, atua com atendimento clínico online, supervisão e assessoria em desenvolvimento humano e educacional. Atua como professor colaborador na Pós-graduação da Universidade Metodista de São Paulo. Ministra palestras, formações e workshops voltados à escuta qualificada, saúde mental e processos educativos com ênfase em: Psicanálise, Neuroeducação, Aprendizagem Tangencial, IA e Educação Socioemocional.
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Paula Rocha

Editora chefe do Jornal Diário do Entorno

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