Onde estão os leitores? Colorindo?
Coluna Desatar Nós com William Figueiredo

Nós educadores sempre temos uma defesa incondicional sobre a leitura. Isso não é discutível. Mas tenho reparado que tem fechado livrarias e um aumento repentino da venda de lápis de colorir. Na verdade, são canetinhas exclusivas, lápis super soft para Bobbie Goods que são livros de desenhos para pintar, que viralizaram na internet. Inclusive milhares de tutoriais sobre que tipo de lápis usar etc.
Esta semana fomos tomados por uma notícia na rede social, de uma carreta com livros, que ao sofrer um acidente, teria derrubado milhares de livros na rodovia. E a notícia justamente não era sobre a fatalidade em si, mas sobre o fato que esta carga não teria sido saqueada. Essa era a questão, os livros não valem a pena furtar.
Claro que com um pouco de pesquisa, nós descobrimos que se trata de uma notícia antiga. Na verdade, o ocorrido foi em 2022 na Rodovia Fernão Dias.
Bom, além de sempre termos o alerta para estas notícias, o que fica interessante neste debate é surgir novamente a discussão de que não temos leitores ávidos.
O que nos leva para outras estatísticas.
Mas será que o brasileiro lê? As últimas pesquisas do Centro de Estudos em Educação, apontam que 66% dos brasileiros não leem mais de 10 páginas de um texto. É uma situação complicada, pensando que uma parte destes números envolvem estudantes.
Mas esta situação que vêm assustando o mundo intelectual, que é o fato que entre os livros top 10 de vendas no Brasil estão os livros Bobbie Goods é um fenômeno significativo. Mas e o livro com letrinhas?
O autor quer ser lido.
E toda vez que escreve algo, quer saber o que o leitor pensa.
O que o escritor produz tem ou não impacto na sociedade. Eu venho de uma tradição dos autores de vanguarda, dos malditos. Tive aulas com Roberto Piva, Cláudio Willer, Rubens Zárate (um grande influenciador), Geração Beat e Surrealismo.
Na juventude lia tanto Antonin Artaud que meus colegas brincavam que era filho dele. Um chiste, para um apreciador um tanto quanto voraz da obra do pensador francês. De qualquer maneira, com isso quero dizer, que é uma tradição de caminhantes, como Jack Kerouac, somos andarilhos e a escrita, a poesia é um estilo de vida. Ou uma maneira de ler o mundo como faz o antropólogo e poeta beat Gary Snyder. São as etnopoéticas que nos movimentam.
E que movimenta minha reflexão, quando atuo por exemplo com a etnopsicanálise ou etnopsicopatologia. Olhando para a prática clínica através dos óculos da cultura brasileira, de forma decolonial. E aqui podemos também lembrar de Franz Fanon e tantos outros.
Mas e o leitor? Esta é a outra ponta que nunca sabemos se realmente está disponível para acessar a obra.
O filósofo francês Paul Ricoeur afirma que temos três mundos à observar neste fenômeno. O mundo do autor, o mundo do texto e o mundo do leitor. São três dimensões que se intercalam e se atravessam. E nesta encruzilhada se faz o acesso ao saber.
Nós filósofos, nos atemos muito ao mundo do texto, e as vezes com um olhar mais sociológico para o autor. Pensar a época em que o autor escreveu o texto, o contexto.
Mas precisamos nos voltar neste momento histórico e social ao mundo do leitor. Pois não parece que as pessoas estão lendo pouco, mas estão lendo textos menos reflexivos. Os livros que carregam a cultura do pensamento universal e da cultura brasileira, estão de fora da lista.
Outro fenômeno importante, é a geração twitter que aprendeu a se comunicar com 144 caracteres. Até que depois de um tempo o Instagram deixou de escrever “textão”, chegando a 2.200 caracteres. E a expressão já demonstra o hábito, de nomear 2.200 caracteres de “textão”. O que dizer do Grande Sertão Veredas? Será que é um “textão”?
É importante pensarmos na teoria da recepção. De que modo o comportamento pode ser observado e como, enquanto educadores e pensadores, podemos criar mediações de leitura. Outro desafio que temos cotidianamente é a AI, que faz o resumo de qualquer livro em instantes. Como faremos a mediação desta experiência com o leitor?
Em Tempo em Narrativa, um “textão” de 3 tomos de Paul Ricoeur, ele faz uma leitura importante do conceito aristotélico de Mimeses. No sentido das figurações que fazemos do mundo da vida. Em seu primeiro estágio a Pré-figuração é o contato que temos diretamente com os fenômenos do mundo da vida (Lebenswelt), um conceito importante para a fenomenologia e o existencialismo francês. Mas poderíamos dizer que se trata de uma atitude natural, ou seja, eu vivo e vou fazendo as coisas como elas se apresentam, sem grandes reflexões.
Este conceito de atitude natural é muito importante para a clínica, por exemplo, é onde estão os problemas que nossos pacientes enfrentam, de forma pré-reflexiva. Estão aí, sem reflexão, sem trabalho analítico.
O que nos leva para a segunda etapa da Mimeses, que é a Configuração. Neste momento, o que foi observado será articulado com outros saberes, e assim criar algo diferente. Aqui o indivíduo coloca um pouco de si nas coisas do mundo, e então devolve para apreciação. Neste ponto é significativo a ciência, a arte, a literatura. A escrita é uma forma de Configuração. É uma articulação da realidade num nível reflexivo. E por isso é tão importante o acesso à leitura.
Por fim, o que foi entregue de volta ao mundo pela Configuração, será disponibilizado como uma Refiguração. Ou seja, aqui o mundo ganha um ponto a mais, uma vírgula diferente na escritura da vida.
E este ciclo é contínuo. A Refiguração volta ao mundo e se torna material para uma nova Pré-figuração, Configuração etc.
Interessante que estes três pontos se relacionam diretamente com os eixos anteriores, de Mundo do Autor, do Texto e do Leitor.
Portanto, o leitor faz parte desta cadeia de pensamento, da formação da cultura, e sim, pode ser preocupante que o leitor esteja colorindo e consultando resumos em chatbots de IA.
Temos um desafio como educadores e escritores. E mesmo que façamos a escrita como um estilo de vida, não podemos deixar de lado, como educadores, de analisar os impactos contemporâneos no mundo do leitor.
E você que leu este artigo até aqui, nos dê um alô nas redes sociais, diga, eu li o seu texto. O escritor sempre agradece e fica com o coração aquecido.
É sempre tempo de ler e desatar nós!
Prof. Dr. William Figueiredo é filósofo, psicanalista, pós-doutor em Psicologia pela Universidade Federal de Uberlândia e doutor em Ciências da Religião. Especialista em Psicopatologia e Bem-Estar Social pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, atua com atendimento clínico online, supervisão e assessoria em desenvolvimento humano e educacional. É também professor colaborador na Universidade Metodista de São Paulo e no Instituto Ânima, como formador em Educação Socioemocional. Ministra palestras, formações e workshops voltados à escuta qualificada, saúde mental e processos educativos.
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