Coluna Crônicas da Cidade

O medo do reencontro

Coluna Crônicas da Cidade com Thiago Maroca

Andando distraidamente, ele esbarra em um homem da qual a feição lhe lembra alguém. Enquanto se desculpa e encara o outro cidadão, a mente ilumina-se e o faz lembrar do amigo.

“Celsão? É você?”

“Maravilha! Sabia que conhecia de algum lugar.”

O apelido de Maravilha remetia aos tempos escolares, onde ele expressava suas opiniões e êxitos com a palavra que lhe deu a alcunha. O Nome dele, na verdade, era Flávio, mas durante os tempos da escola todos o chamavam de Maravilha. Ele não se importava, fosse provando um novo sabor de sorvete ou fazendo um gol no campeonato extraclasse, concluia com seu bordão de impacto.

“Maravilha!”

A vida adulta afasta as amizades escolares. As escolhas, nos levam por diferentes caminhos conforme a profissão que queremos ou as oportunidades que a vida nos apresenta. Não seria diferente com esses dois amigos que torciam pelo mesmo time e gostavam da mesma garota.

“Tem notícias da Natalia? Faz tempo que não a vejo”

“Só nas redes sociais”

“Eu, nem isso, bloqueei faz tempo. Cada opinião avessa.”

“Normal, a internet permite esse espaço para opiniões”

“Opinião é uma coisa, mau-caratismo é outra”

“Como oque?”

“Ora, como o quê? Ela concorda com tudo que o Daniel da sétima série pensa. Eu acho que ele é…”

“Eu nem consigo imaginar. Mas temos um grupo da turma, você quer participar?”

“Deus me livre! O Júlio só fala de futebol, o Eduardo todo dia manda mensagem bíblica e Sandra só posta assunto de política. Eu já saí desse grupo três vezes”

“Não está em uma boa fase né Celsão. Eu que vi você compartilhou umas frases com tom de indireta, dando a entender que você está separando. Acontece”

“Mas meu caso é diferente, ela que não entende tudo que eu fiz por nós”

Talvez a distância que a vida adulta cria não seja tão ruim assim. Já pensou, um grande amigo de infância revelando ser uma pessoa medíocre, misógina e até racista? Posso estar exagerando para alguns, mas, creio que para outros é uma realidade bem comum, indiferente de classe econômica.

Mas às vezes, o que um colega precisa é apenas ser silenciado, ser retirado de um grupo mais seleto, ocultar suas ações e status. Assim não nos pegamos tanto em pensamentos sobre crises e soluções sobre a vida dos outros.

Enquanto eu divago sobre as formas de se afastar sutilmente de alguns conhecidos, Celsão e Flávio se despedem.

“Apesar de tudo, Celsão, você sabe que a Natália é a melhor amiga da minha esposa né?”

“Então, nesse caso, creio que nunca poderemos frequentar o mesmo lugar.”

“Maravilha”!

Thiago Maroca é escritor, membro da Academia Valparaisense de Letras, produtor audiovisual, fotógrafo, mestre em educação, escoteiro, pai do Théo e uma meia dúzia de coisas que não cabem nesse espaço.

Manda um OI: @thiagomaroca/thiagomaroca@gmail.com

Paula Rocha

Editora chefe do Jornal Diário do Entorno
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