Coluna Desatar Nós com William Figueiredo

Além das Notas: A batalha pela saúde mental do cérebro adolescente na escola

Coluna Desatar Nós com William Figueiredo

Hoje vamos dar mais um passo em direção ao estudo do suicídio. Em especial entre jovens e adolescentes, este tema é um desafio de saúde pública que nos confronta com uma resposta de toda a sociedade. E nossa perspectiva, além de atender ao público em geral, visa chegar até os professores, pois a escola é um espaço excelente para este cuidado. 

Para compreendermos o papel singular da escola, é necessário superar a visão tradicional e vamos adotar tanto as descobertas da neurociência contemporânea como as profundas percepções da psicanálise, especialmente a de Donald Winnicott, que nos ajuda na compreensão deste acolhimento na prática.

Portanto, a escola tem a responsabilidade de ser mais do que uma instituição de ensino. 

A adolescência não é apenas uma fase de transição social, mas um período de intensa reestruturação cerebral. A neurociência nos mostra que o cérebro adolescente é um espaço em plena construção, com a amígdala — o centro de processamento emocional e de reações de medo — funcionando a pleno vapor. Isso explica a intensidade das emoções e a sensibilidade a situações de estresse.

Simultaneamente, o córtex pré-frontal, a área responsável pelo controle de impulsos, pela tomada de decisões racionais e pela previsão de consequências a longo prazo, ainda está em fase de maturação, o que só chega a sua finalização em torno dos 25 anos. 

Essa imaturidade cria uma perigosa lacuna entre a experiência emocional intensa e a capacidade de regulá-la: da intensidade, do luto da infância, e a cobrança por ser um adulto com resultados. É nesse vazio que a impulsividade pode se manifestar de forma perigosa, tornando a ideação suicida, quando presente, mais propensa a se transformar em ação. 

“O desenvolvimento de ações e estratégias para a promoção da saúde mental e a prevenção do comportamento suicida nas escolas perpassa por compreensões complexas em relação ao suicídio e sobre a saúde mental, além de proposições que visem, de forma longitudinal, a formar profissionais da educação que possam reconhecer a necessidade e atuar nesses contextos.”

O ambiente escolar, com suas pressões por avaliações, sociais e familiares, pode atuar como um intensificador desse estresse neurobiológico. Um ambiente percebido como hostil, competitivo ou de abandono pode sobrecarregar o sistema nervoso do adolescente, levando a estados de desespero e isolamento.

Neste sentido, Winnicott, psicanalista britânico, nos oferece um espaço essencial de reflexão. 

O autor introduziu a ideia de um “ambiente de sustentação” (ou holding environment), que, na relação primária entre mãe e bebê, é um espaço seguro, previsível e confiável. É nesse ambiente que o indivíduo pode se desenvolver, explorar e cometer erros, sabendo que há uma base segura para voltar. A escola, em sua essência, tem o potencial de sustentar esse espaço de acolhimento.

A equipe escolar, atuando como “cuidadores suficientemente bons” — outro conceito do psicanalista —, não precisa ser perfeita, mas deve ser consistentemente empática, atenta e responsiva. A mera presença de adultos confiáveis, capazes de observar e intervir, combate a sensação de invisibilidade e desamparo.

 

“É no caos suicida que o adolescente se torna mais vulnerável e susceptível as novas relações contextuais de vida. Em um desses contextos encontra-se a figura do professor, a ele é reservado um papel fundamental. A partir dos conhecimentos sobre a temática do suicídio, o professor poderá ajudar o adolescente a descobrir novas possibilidades no existir, ultrapassando assim seus sofrimentos. Ele representará assim um grande apoio para o adolescente (TEIXEIRA, 2001, p. 6).”

 

É nesse contexto que se aprofunda e se torna crucial a prevenção. O “ambiente de sustentação” não é apenas um refúgio, mas a condição necessária para o florescimento do Verdadeiro Self — a parte autêntica, espontânea e criativa do ser humano. O Verdadeiro Self emerge quando o ambiente responde de forma adequada e consistente às necessidades e gestos genuínos da criança e do adolescente. Um espaço para o gesto espontâneo!

No entanto, quando o ambiente falha em sustentar o indivíduo — seja por abandono, exigências excessivas ou falta de empatia —, ele pode ser compelido a desenvolver um Falso Self, uma máscara, uma persona de conformidade e obediência, criada para proteger o frágil Verdadeiro Self de um ambiente hostil. 

Ele é funcional, cumpre as expectativas, tira boas notas, mas o faz com um custo psicológico imenso. A pessoa que vive predominantemente a partir do seu Falso Self sente-se vazia, irreal e desconectada de sua própria vitalidade.

O adolescente, temendo o julgamento e a exclusão, pode abandonar sua espontaneidade em favor de uma identidade socialmente aceitável, mas psicologicamente insustentável. A tragédia do suicídio, nesse contexto, pode ser vista como uma tentativa desesperada de “acabar com a vida” que o indivíduo sente que nunca teve, de dar um fim à dor de se sentir “morto por dentro”. O ato não é um anseio pela morte, mas a busca pelo fim de um estado de não-ser, de inautenticidade.

A escola pode se mover proativamente para ser um ambiente que não apenas acolhe, mas que ativamente nutre o Verdadeiro Self do adolescente, ou seja seus aspectos criativos e transformadores da vida.

A escola deve integrar em seu currículo programas que ensinem os alunos a nomearem e gerirem suas emoções, promovendo uma Educação Socioemocional. Ao dar ao adolescente um vocabulário para a sua experiência interna, estamos fortalecendo o seu córtex pré-frontal, equipando-o com ferramentas cognitivas para regular a poderosa amígdala. Isso é o oposto de reprimir emoções; é validar e dar forma à autenticidade ao seu eu verdadeiro.

Por outro lado, educadores não são terapeutas, mas são a primeira linha de contato. Podem reconhecer os sinais de alerta — o isolamento social, a queda abrupta no desempenho, a irritabilidade incomum. A escola deve ser um lugar onde o aluno se sinta parte de algo maior, mas que permita que sua singularidade seja aceita e acolhida. 

Clubes, esportes, atividades extracurriculares e projetos em grupo são mais do que passatempos; são os “objetos transicionais” da adolescência, que oferecem um espaço seguro para a exploração da identidade e a construção de laços sociais significativos. 

Neste sentido, a previsibilidade do ambiente escolar é crucial. Rotinas claras, expectativas consistentes e a garantia de que as regras são justas e aplicadas a todos reduzem a ansiedade e proporcionam uma sensação de controle, tão necessária para o cérebro adolescente. 

Mais do que isso, a escola deve ser um espaço onde os alunos sintam que suas vozes e perspectivas são valorizadas. Isso cria um senso de pertencimento que é um poderoso antídoto para a solidão e o desamparo.

A escola pode se tornar um porto seguro, um espaço de acolhimento que entende a complexidade do desenvolvimento adolescente e, principalmente, que nutre a autenticidade de cada indivíduo. 

É uma tarefa difícil, mas é um investimento na vida de nossos jovens. 

 

Algumas Referências para consulta:

 

BARROS, Sara Marques. Violência nas relações de namoro juvenis e ideação e comportamentos suicidas. 2014. 96 p. Dissertação (Mestrado em Medicina Legal) — Instituto de Ciências Biomédicas de Abel Salazar da Universidade do Porto, Porto.

BRASIL, Ministério da Saúde. Prevenção do Suicídio Manual dirigido a profissionais das equipes de saúde mental, 2006.

LIMA, B. B., & SILVA, F. D. S. D. (2020). O papel da escola na prevenção do suicídio juvenil: desafios contemporâneos.

PRADO, Aneliana da Silva. Vamos falar sobre suicídio? A prevenção no ambiente escolar. Curitiba: IFPR, 2019.

Silva, D. T. G., Amaral, L. C. do ., Pedrollo, L. F. S., Silva, A. C., & Vedana, K. G. G.. (2025). Prevenção do comportamento suicida na escola: ensino baseado em simulação (EBS) . Educação E Pesquisa, 51, e276408. https://doi.org/10.1590/S1678-4634202551276408por 

Winnicott, D. W. (1983). O ambiente e os processos de maturação: estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional. Porto Alegre: Artes Médicas.

Winnicott, D. W. (1990). Natureza humana. Rio de Janeiro: Imago Ed

Prof. Dr. William Figueiredo é filósofo, psicanalista, pós-doutor em Psicologia pela Universidade Federal de Uberlândia e doutor em Ciências da Religião. Especialista em Psicopatologia e Bem-Estar Social pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, atua com atendimento clínico online, supervisão e assessoria em desenvolvimento humano e educacional. É também professor colaborador na Universidade Metodista de São Paulo e no Instituto Ânima, como formador em Educação Socioemocional.  Ministra palestras, formações e workshops voltados à escuta qualificada, saúde mental e processos educativos.

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arteveiculo@gmail.com 

@trieb_psicanalise

Paula Rocha

Editora chefe do Jornal Diário do Entorno

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