De Bobbie Goods a morango do amor
Coluna Crônicas da Cidade com Thiago Maroca

Uma manhã dessas, as crianças no parquinho estavam na sombra do escorregador desenhando, achei contemporâneo sair para se inspirar na natureza ou na vida urbana e assim buscar originalidade em suas criações. Mas toda minha filosofia foi por água abaixo quando eu vi que todas elas estavam com um mesmo caderno de desenho padronizado e canetinhas.
“Estamos desenhando Bobbie Goods, tio”
“Ah, Tá!”
Fiquei sem entender. Acontece quando não temos tempo para ficar acompanhando tudo que acontece por aí. Lá em casa eu desisti de assistir TV aberta por dois motivos: os noticiários andam violentos demais ou requentando assuntos do qual eu já vi acontecer do mesmo jeito nos últimos quase 20 anos. O segundo motivo é que eu não quero o fio da antena passando pela sala em formato de gambiarra permanente.
Sobre o tal livro, não tem criatividade, é só pintar o desenho. Um cachorro, um coelho ou qualquer outro bicho fofo. Nas lojas, nas ruas e até padaria eu já achei esse livro de colorir, o preço é simbólico, me lembra quando eu frequentava a copiadora e pedia para imprimir em preto e branco, o que pesa no bolso são as benditas canetinhas, eu vi o preço sugerido de quatro reais cada. Nem a Faber Castell conseguiu chegar nesse nível de exploração. O problema é que só de verde existem umas seis variações, não quero pensar nas outras cores. O tal do Hype do momento é colorir, coisa para criança que alguns adultos adotam, como sempre. Os desenhos ficam bem bonitinhos, bem coloridinhos, só me assustou porque entrou na lista dos dez livros mais vendidos no Brasil. Esse dado só mostra duas coisas, ninguém gosta de ler e comprar livros de literatura ou desenhar é mais fácil porque não precisa interpretar.
Nesse fim de semana, o cartão de crédito, já atuando como membro provedor da família, conheceu mais uma peripécia para ser usado: O morango do amor.
Eu não sei qual festa julina esse povo foi, mas do nada em menos de uma semana estava todo mundo comendo o tal do fruto com uma casca vermelha e dura, parente da maçã do amor. Para alegria dos confeiteiros endividados e dentistas recém formados, o doce caiu no gosto popular e preciso confessar, eu provei e gostei. Mas não acho que vale esse estardalhaço todo não.
Brasileiro querendo surfar na onda, fez melancia do amor, kiwi do amor, banana do amor… Aí o trem degringolou e começam exibir umas peças de carne assando com o título: maçã do amor raiz. Eu amo churrasco da mesma forma que amo um doce, acho que podem se unir e não competir. Me convide e serei um ótimo comensal, tenho experiencia em visitar, forrar o bucho, elogiar e partir, assim como as muriçocas após drenarem nosso sangue.
Nosso primo rico, o DF é o terceiro maior exportador de morango do Brasil, em Brazlandia todo ano tem a festa do morango, eu nunca fui, meu receio é não achar lugar para estacionar, tô sendo sincero.
Torço para que esta tendência impulsione realmente o faturamento dos pequenos empreendedores, pois, a julgar pela exposição nas redes sociais, é bem provável que os morangos se tornem tão escassos que nem mesmo restarão para ilustrar este texto.
Bom é isso.
Desenhem e comam o morango.
Beijo!
Thiago Maroca é escritor, roteirista, às vezes zé modinha, sociólogo e mestre em educação, escoteiro, pai do Théo e uma meia dúzia de coisas que não cabem nesse espaço.
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