Coluna Crônicas da Cidade com Thiago Maroca

Cobrador

Coluna Crônicas da Cidade com Thiago Maroca

Não sei se você percebeu, mas nos ônibus do entorno do Distrito Federal, a imagem do cobrador está desaparecendo. Aquela pessoa, na maioria das vezes, eram mulheres, simpáticas, sempre dando orientações e dizendo para o motorista aguardar porque alguém corria em direção ao coletivo. Eram ágeis em explicar todos os principais lugares que a rota do ônibus fazia. Com os passageiros mais fiéis, sempre um bom dia acompanhado de uma pergunta íntima sobre o trabalho, o time de futebol e os filhos, claro.
Pois é, e para onde vão os cobradores do entorno? Para a demissão. Antes da pandemia, em cidades como Belo Horizonte e até o Rio de Janeiro tentaram, mas retrocederam com a decisões, devido o excesso de reclamações na prestação do serviço, mas creio que o cenário agora é outro. Chegou a tecnologia.
O DF já implantou em todo seu sistema, uma bilhetagem em que você pode usar seus cartões para pagar a passagem e assim evitar a necessidade de um cobrador, só que as empresas do entorno apenas demitiram os cobradores sem implantar sistema nenhum, nesse caso, apenas criou mais um ofício para o motorista. O pior de tudo é saber que há pelo menos trinta anos, nenhum estudante conseguiu o direito de viajar pagando meia ou usando o passe livre.
A realidade é que ninguém mais anda com dinheiro na mão, é tudo no pix, no cartão ou aquela tecnologia que a gente encosta o celular nas coisas para poder pagar. A missão impossível está na função de possuir moedas para entregar ao motorista que agora é cobrador também e facilitar seu trabalho. Ficou por conta do condutor do transporte, cuidar do dinheiro, dirigir e ainda descer para auxiliar as pessoas mais necessitadas. Dizem que isso é o futuro, mas sem planejamento, teremos um alto índice de acidentes envolvendo transportes públicos.
Existia um ditado popular que dizia:
”Tudo na vida é passageiro, menos o motorista e o cobrador”
Mas agora mudou foi tudo, todo mundo é passageiro, até minha amiga cobradora, a Silvia. Uma vizinha antiga que trabalhava na extinta Anapolina, era animada, gostava de ajudar quem fosse. Naqueles tempos, crianças e até alguns adolescentes passavam por debaixo da roleta, eu achava aquilo uma aventura com sabor de transgressão, mas hoje não tem nem roleta alta e nem cobrador mais. O tal do bilhete único, as catracas eletrônicas e até as câmeras de segurança inibem qualquer arruaça juvenil. Agora não puxa mais a cordinha, é um botão e ele realmente funciona, não precisa se esgoelar para dizer que vai descer na próxima. Antes bastava um olhar para a cobradora e ela reforçava que iria descer gente no próximo ponto, se fosse mulher e de noite, parava onde fosse mais iluminado.
Sem mais nem menos, o Carlos, o último cobrador do ônibus que pego para o serviço, sumiu. Pensei que fosse algo relacionado a saúde, mas não, foi dispensa mesmo, uma pena.
O cobrador não era só quem recebia a passagem — era quem lembrava que a cidade, no fundo, ainda tinha um pouco de gente dentro.
Fica um abraço para todos os cobradores e cobradoras do entorno.
Fui.
Thiago Maroca é escritor, roteirista, sociólogo de ônibus, mestre em educação, escoteiro, pai do Théo e uma meia dúzia de coisas que não cabem nesse espaço.
Manda um OI:@thiagomaroca / thiagomaroca@gmail.com

Artigos Relacionados

Botão Voltar ao Topo