O impossível só acontece no acaso
Coluna Crônicas da Cidade com Thiago Maroca

Eles estavam em lados opostos da rua, mas foi ele quem a notou primeiro. Ela percebeu os olhares e começou a jogar o cabelo, sorrindo para o horizonte. Ele, então, coçou o nariz olhando para o chão e, em seguida, levantou o rosto, rindo também. O destino parecia conspirar para que se encontrassem. Havia um salão de cabelo e barba na esquina, e ele decidiu ir até lá, entrou e pediu cabelo e barba completa. Seu dia começou bem, havia trocado um flerte, isso era um bom sinal.
Feito quem espera uma virada de cena na novela, ela entrou no salão, um pouco esbaforida, perguntou as horas, se podia sentar. O cabeleireiro lhe ofereceu água, o rapaz a reconheceu, mas não podia virar porque seu Manoel fazia o pezinho, que é aquela coisa de passar a navalha na nuca raspando uns pelos rebeldes, tudo bem que ele não tinha muito cabelo, mas tinha vaidade. Ela começou a puxar papo.
“Vocês moram no bairro?”
“Sim, eu moro.”
Nosso mister man não deu brecha para seu Joaquim, mostrou-se disponível para aquela moça. Não importa a pergunta, ele iria responder.
“Eu posso te fazer umas perguntas?”
“Claro, todas”
“Se as eleições fossem hoje, você votaria em quem para presidente?”
Ele queria responder, mas é que política não era seu forte, não sabia que era preciso ter amigo político para conseguir uma paquera. Os tempos mudaram muito, ele tentava se atualizar, tinha um smartphone, fazia muitos vídeos, tentou algumas dancinhas e havia comprado morango do amor mas conhecer algum candidato a presidente pegou ele desprevenido. Antes dela fazer a pergunta novamente, ele notou pelo espelho que aquilo tudo era o trabalho dela, ela era uma entrevistadora de pesquisa eleitoral. Infelizmente o brilho nos olhos apagou-se e a reflexão trabalhista entrou em cena.
“Olha, eu não vou responder isso, mas eu queria deixar uma pergunta pra você:É você que lava a air fryer na sua casa?”
A moça sem entender, achou melhor sair, talvez não seria um bom lugar para coletar as entrevistas.
O cabeleireiro e o cliente deram boas risadas, mas seu Joaquim não tinha entendido a metáfora, já acostumado com a liberdade de expressão dos clientes em seu salão, sabia que o que mantinha seu negócio aberto era permitir a livre opinião naquele espaço, fosse falar de política, futebol ou religião.
Nosso amigo, sem chance de um encontro para aquele dia, saiu de cabelo cortado e barba feita pensando:
“Por que eu preciso saber o nome de um candidato a presidente?”
Thiago Maroca é escritor, roteirista, careca que precisa cortar o cabelo a cada 15 dias, sociólogo de ônibus, mestre em educação, escoteiro, pai do Théo e uma meia dúzia de coisas que não cabem nesse espaço.
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