Coluna Desatar Nós com William Figueiredo

Gestão da angústia: A inteligência que o seu currículo não resolve

Coluna Desatar Nós com William Figueiredo

Um público muito afetado no que diz respeito a saúde mental e que precisa ser lembrado neste Janeiro Branco: vamos conversar com os homens, principalmente no contexto de liderança.

A repressão emocional masculina fomenta agressividade e isolamento, convertendo sofrimentos internos em patologias sociais que desestabilizam a segurança, a economia e o equilíbrio das famílias.

Você aprendeu a gerir empresas, equipes e investimentos, a ter um ótimo LinkedIn, mas nunca te ensinaram a gramática do seu próprio desejo. Homens que foram ensinados a “resolver problemas”, mas que se veem paralisados por uma força invisível. O analfabetismo emocional se transforma em angústia paralisante e a análise é uma ferramenta estratégica capaz de desarmar essa bomba relógio. 

No mundo dos negócios, da política ou da alta gestão, o homem é treinado para ser um solucionador de problemas. Aprendemos cedo que “sentir” é uma variável de ruído que atrapalha a execução. Construímos carreiras sólidas baseadas na lógica, na força de vontade e na capacidade de entregar resultados sob pressão. No entanto, existe um inimigo silencioso que não respeita hierarquias nem saldos bancários: a Angústia.

Muitos homens chegam ao consultório no ápice de suas carreiras relatando uma sensação de “asfixia” ou um “vazio” que nenhuma conquista consegue preencher. Eles têm o currículo brilhante. Esse descompasso entre o sucesso externo e a fragilidade interna é o sintoma clássico do Analfabetismo Emocional.

Neste Janeiro Branco, é preciso falar abertamente com o público masculino: a sua incapacidade de nomear o que sente não é uma “característica de personalidade”, é um problema histórico na sua educação que está cobrando um preço alto demais.

Para o homem pragmático, a angústia é frequentemente confundida com o medo ou com o estresse. Mas há uma distinção fundamental que Jacques Lacan, em seu célebre Seminário X, nos ensina: o medo tem um objeto (medo de perder o emprego, medo de um assalto), mas a angústia não tem objeto.

Lacan define a angústia como o sinal de que “o objeto está perto demais”. No contexto masculino, isso se traduz naquela sensação sufocante de ser engolido pelas expectativas dos outros (da esposa, dos filhos, dos sócios, do mercado). O homem “analfabeto emocional” vive para satisfazer o desejo do Outro, sem nunca ter se perguntado: “O que eu realmente quero?”.

Quando você não tem palavras para o que sente, você não tem defesas simbólicas. A angústia, então, surge como uma invasão. É aquele aperto no peito às três da manhã, a irritabilidade explosiva por motivos banais ou a sensação de que, apesar de ter tudo, você não tem nada. Lacan dizia que a angústia é o único sinal que não engana. Ela está lhe dizendo que a vida que você construiu não é a vida que você deseja habitar.

Homens tendem a hiperdesenvolver as funções executivas do córtex pré-frontal, enquanto negligenciam a alfabetização do sistema límbico.

Quando a angústia bate, o cérebro desse homem entra em “modo de sobrevivência”. Sem um vocabulário emocional (competências Socioemocionais), o indivíduo não consegue processar o estímulo. O resultado é o que chamamos de Acting Out (Passagem ao Ato).

Como o homem não sabe falar sobre sua angústia, ele a “atua”. Ele trai o cônjuge, ele bebe além da conta, ele se torna um tirano no trabalho ou ele se isola em um silêncio punitivo, entre outros vícios. Essas são tentativas rudimentares de “controlar” a angústia através da ação, mas, como não tocam na causa, apenas geram mais caos e isolamento.

Muitos homens hesitam em buscar análise por acharem que é um lugar para “desabafar” ou “reclamar da vida”. Esse é um erro de percepção. A análise, especialmente para o homem de ação, é uma operação estratégica sobre a própria subjetividade.

A análise não vai te ensinar a “ser sensível” no sentido popular da palavra. Ela vai te alfabetizar para que você recupere o controle sobre o seu próprio comando.

O objetivo da análise é transformar o Acting Out em fala. Quando você consegue nomear a angústia, você retira o poder de fogo dela. O que era um “aperto no peito” inexplicável torna-se uma questão passível de solução: “Eu estou angustiado porque estou vivendo uma farsa profissional para agradar o fantasma do meu pai”. Uma vez nomeado, o problema pode ser gerido.

Ao contrário do que se pensa, a análise não elimina a angústia para sempre (viver exige uma dose de angústia), mas ela a torna suportável. Ela cria o que Lacan chamava de “espaço entre o desejo e o objeto”. Você deixa de ser um escravo reativo das suas emoções e passa a ser um sujeito que as observa e decide o que fazer com elas.

A angústia, para o filósofo Martin Heidegger, suspende o cotidiano e desvela o nada. Esse vazio possibilita o ato apropriador (Ereignis), onde o sujeito assume autenticamente sua abertura para existir.

Aplicando os pilares socioemocionais, a análise desenvolve a autogestão. Um homem que passou por um processo analítico sério é um líder melhor, um pai mais presente e um parceiro mais real, porque ele não projeta mais suas sombras inconscientes nas pessoas ao seu redor.

É Janeiro Branco, mas para o homem, a conscientização precisa vir acompanhada de coragem. Não a coragem física de enfrentar um perigo externo, mas a coragem de enfrentar o vazio interno.

O analfabetismo emocional é a maior fraqueza de um homem de sucesso. Ele o torna vulnerável a vícios, doenças psicossomáticas e à solidão profunda no topo da montanha.

Se você sente que a sua “máquina” está falhando, que a angústia está ganhando terreno e que as ferramentas que te trouxeram até aqui (lógica e força) não estão mais funcionando, talvez seja a hora de buscar uma nova tecnologia de gestão: a escuta de si mesmo.

Não espere o colapso para buscar ajuda. A clareza só nasce quando paramos de fugir da nossa angústia e começamos a interrogá-la.

É sempre tempo de desatar nós e olhar para si mesmo!

Sobre o Autor:
Prof. Dr. William Figueiredo é filósofo, psicanalista e educador físico. Pós-doutor em Psicologia pela Universidade Federal de Uberlândia e doutor em Ciências da Religião. Especialista em Psicopatologia e Bem-Estar Social pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa, atua com atendimento clínico online, supervisão e assessoria em desenvolvimento humano e educacional. Atua como professor colaborador na Pós-graduação da Universidade Metodista de São Paulo. Ministra palestras, formações e workshops voltados à escuta qualificada, saúde mental e processos educativos com ênfase em: Psicanálise, Neuroeducação, Aprendizagem Tangencial, IA e Educação Socioemocional.
Sentiu que este texto conversa com você?
A jornada analítica começa com uma primeira escuta. Se você está pronto para ir além dos sintomas e entender as raízes do seu sofrimento, agende uma conversa preliminar de acolhimento (online ou presencial).
www.3eb.com.br
contato@3eb.com.br
@trieb_psicanalise

Paula Rocha

Editora chefe do Jornal Diário do Entorno

Artigos Relacionados

Botão Voltar ao Topo