A liquidez das relações e seu absurdo
Coluna Desatar Nós com William Figueiredo

Precisamos pensar Sísifo Feliz, dizia Albert Camus.
Em sua obra, “O mito de Sísifo”, Camus está justamente falando deste absurdo da existência. Para quem não conhece este mito, Sísifo foi condenado pelos deuses a empurrar uma pedra até o alto da montanha. Bom, a pedra sempre caía do outro lado, então ele desce e começa novamente sua jornada, infinita.
Para Camus, este modelo mítico exemplifica a condição absurda da vida humana, que deve ser combatida com uma postura de enfrentamento ao absurdo.
A vida não é algo perfeito, e as coisas não vão se encaixar. E para fugir, como diríamos a partir do pensamento existencial, precisamos ser inautênticos.
A autenticidade é enfrentar os dilemas da incompreensão da vida. Compreender os limites. E o maior limite é o outro que está à nossa frente. As relações são absurdas. Os nossos parceiros sempre têm algo que não podemos acessar.
Aqui entra uma nova dinâmica.
Já que não posso com o absurdo, então nem entro na relação. É que diria Zygmunt Bauman, dos Amores Líquidos.
Não vamos entrar mais em compromissos, já que não temos como lidar com o absurdo do outro, com suas carências, com suas fragilidades. Podemos ficar só no superficial.
Os amores de Tinder. Onde eu escolho alguém numa prateleira de produtos. Assim evitando a complexidade de conhecer pessoas aleatórias na vida. Afinal ter que lidar com a contingência é sempre angustiante. Afinal não vai aparecer alguém à porta.
Aprofundar-se em um relacionamento implica em uma grande vulnerabilidade. Expor-se ao outro, permitir-se ser visto e amar verdadeiramente, significa correr o risco da perda, da decepção e da dor.
Esse medo pode estar enraizado em experiências precoces de desamparo, abandono ou feridas narcísicas. A “liquidez” seria uma defesa contra essa vulnerabilidade, uma forma de evitar o sofrimento inerente à profundidade dos laços.
A cultura contemporânea, com sua ênfase na satisfação imediata e na realização de todos os desejos, pode levar a uma intolerância à frustração. O desejo, no sentido psicanalítico, é insaciável e sempre busca algo que falta.
Quando ele se torna o principal motor dos relacionamentos, e não o amor que implica em cuidado e renúncia, a tendência é descartar o objeto quando ele não mais satisfaz plenamente.
O que pode em apenas uma noite. Depois que pagar o jantar, e deixar o outro em casa, ou só pedir um Uber. E assim me livrei de uma frustação.
A superficialidade e a descartabilidade dos “amores líquidos” podem ser explicadas, em parte, por uma dinâmica narcísica, onde o foco está mais no que o outro pode oferecer para o próprio ego do que na construção de um vínculo genuíno e recíproco.
Embora a liberdade seja valorizada, uma liberdade excessiva e a infinidade de opções podem gerar angústia. A escolha de um parceiro implica na renúncia a todas as outras possibilidades, o que pode ser assustador para o sujeito que teme “perder” algo melhor.
A “liquidez” oferece uma aparente fuga dessa angústia da escolha e da renúncia, permitindo que o indivíduo mantenha suas opções abertas, mas ao custo de uma profundidade relacional.
É preciso pensar Sísifo feliz, porque ele escolhe o absurdo, não nega a impossibilidade de acertar, o erro faz parte da condição existencial.
É preciso pensar Sísifo apaixonado.
O risco que o outro me oferece faz parte deste movimento interno de amadurecimento. Porque é na superação do desamparo que conseguimos dar força para o desejo.
Amar é a força que limita o gozo infinito sem vínculo. Se permitir amar, é aceitar que não haverá fim perfeito. Não há relação em que um algoritmo vai selecionar e que possa evitar a angústia.
A maturidade é resultado da possibilidade de conviver com o absurdo.
Um relacionamento é a pedra de Sísifo, empurramos para um lado e caí do outro, e assim por diante. O amor é encontrar alguém para fazer esta tarefa juntos.
Sem grandes novidades. Sem grandes performances de cinema. O outro se coloca a empurrar a pedra. Agora não mais sozinho, mas vamos empurrar e empurrar, porque vale a série: viver o absurdo ao seu lado.
O cotidiano engole a gente. A compreensão das dinâmicas psíquicas inconscientes (medos, defesas, desejos, padrões de repetição) que contribuem para a manifestação desses comportamentos e padrões relacionais descritos por Bauman na sociedade contemporânea, são chaves que precisamos olhar com carinho.
A vida é simples, não é performática. Se encontrar alguém legal, cuide!
Sempre é tempo de desatar nós!
Prof. Dr. William Figueiredo é filósofo, psicanalista, pós-doutor em Psicologia pela Universidade Federal de Uberlândia e doutor em Ciências da Religião. Especialista em Psicopatologia e Bem-Estar Social pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, atua com atendimento clínico online, supervisão e assessoria em desenvolvimento humano e educacional. É também professor colaborador na Universidade Metodista de São Paulo e no Instituto Ânima, como formador em Educação Socioemocional. Ministra palestras, formações e workshops voltados à escuta qualificada, saúde mental e processos educativos.
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