Quando a leitura vira saúde públic
Coluna Margens e Livros com Marcos Linhares
Entre algoritmos, ansiedade e telas infinitas, o cérebro humano começou a perder uma capacidade antiga: sustentar atenção. Os números sobre declínio cognitivo, ansiedade, depressão e doenças neurodegenerativas cresceram nos últimos anos, especialmente depois da pandemia. O Brasil já convive com cerca de 1,8 milhão de pessoas com demência e a projeção do Ministério da Saúde é de que esse número ultrapasse 5 milhões até 2050.
No meio dessa avalanche de diagnósticos, um movimento começa a ganhar força dentro da própria ciência: a leitura aparece, cada vez mais, associada à preservação da memória, à redução do estresse, ao fortalecimento da atenção e até à desaceleração do envelhecimento cerebral.
A reportagem de Paloma Oliveto, publicada na terça-feira, dia 12 de maio pelo Correio Braziliense, baseada em estudo da University College London, chama atenção justamente para isso.
O levantamento concluiu que atividades culturais, como leitura, ida a museus, música, pintura e participação em eventos artísticos, produzem impacto mensurável no envelhecimento biológico.
Os pesquisadores observaram alterações positivas em marcadores celulares ligados ao envelhecimento e ao estresse inflamatório. O dado mais interessante talvez seja outro: os benefícios apareceram em intensidade comparável à de atividades físicas.
A leitura tem uma característica que poucas atividades possuem hoje: ela exige silêncio interno e continuidade. O cérebro precisa organizar linguagem, memória, interpretação, imaginação, ritmo e emoção simultaneamente. Enquanto as redes sociais fragmentam o pensamento em estímulos curtos, a leitura longa obriga o cérebro a construir conexão entre ideias, personagens, informações e contextos.
Reserva
Pesquisas recentes na área de neurologia e envelhecimento vêm associando o hábito contínuo de leitura ao aumento da chamada “reserva cognitiva”, conceito usado para explicar por que algumas pessoas conseguem retardar sintomas de doenças neurodegenerativas mesmo apresentando alterações cerebrais semelhantes às de outros pacientes. Cérebros mais estimulados parecem encontrar caminhos alternativos para continuar funcionando.
Isso ajuda a explicar por que pessoas que mantêm hábitos intelectuais ativos costumam apresentar declínio cognitivo mais lento. Diversos estudos mostram que atividades cognitivamente complexas ajudam o cérebro a resistir melhor ao avanço da perda funcional.
Outro ponto pouco discutido é o impacto da leitura sobre a saúde emocional. O excesso de estímulos digitais produziu indivíduos permanentemente acelerados e o cérebro passou a funcionar em estado de alerta contínuo: notificações, vídeos curtos, múltiplas abas abertas, excesso de informação e consumo compulsivo de conteúdo alteram padrões de atenção e aumentam fadiga mental.
Ler um livro produz justamente o movimento contrário: a frequência cardíaca desacelera, o foco se reorganiza e o cérebro sai do padrão fragmentado de estímulo constante.
Não por acaso, médicos, neurologistas e psiquiatras começaram a discutir com mais seriedade práticas de estimulação cognitiva como parte da prevenção em saúde mental.
The Lancet
“Em julho de 2024, durante a Conferência Internacional da Associação de Alzheimer, na Filadélfia, a Comissão Permanente da revista médica The Lancet publicou novo relatório sobre prevenção e cuidados em demência.”
Este documento reforça que fatores ligados à atividade intelectual e social têm papel importante tanto na prevenção de demências quanto no fortalecimento cognitivo ao longo da vida.
Emocional
Existe ainda um aspecto social que raramente entra no debate. Ler amplia repertório emocional: pessoas que leem ficção, por exemplo, tendem a desenvolver maior capacidade de empatia e interpretação de emoções complexas. Isso ocorre porque o cérebro acompanha conflitos, intenções e sentimentos de personagens durante longos períodos. Em tempos de radicalização emocional e intolerância crescente, talvez isso também explique parte da importância silenciosa dos livros.
Boiando num mar de informações
O problema é que o Brasil vive um paradoxo brutal: nunca tivemos tanto acesso à informação e, ao mesmo tempo, tanta dificuldade de concentração. São muitas telas e pouquíssima leitura profunda, pois o livro passou a disputar espaço com uma arquitetura digital construída precisamente para interromper o pensamento a cada poucos segundos.
Talvez por isso a leitura entrou no campo da saúde pública. Ler antes de dormir, frequentar bibliotecas, participar de clubes de leitura, discutir literatura, manter o cérebro exposto a linguagem complexa e narrativa longa pode parecer simples demais diante de um mundo obcecado por soluções tecnológicas. Todavia, “os donos do futuro”, parecem desprezar o fato de que o cérebro humano ainda responde a silêncio, atenção, memória, imaginação e linguagem.
Enquanto parte da sociedade busca comprimidos para desacelerar o colapso emocional contemporâneo, a ciência começa a olhar novamente para um objeto antigo, silencioso, subestimado e que não precisa tomada: o livro.
Marcos Linhares é jornalista, escritor, professor e biógrafo. Atua há mais de duas décadas na promoção da leitura, políticas do livro e formação de autores. Foi presidente do Sindicato dos Escritores do DF e já coordenou a Feira do Livro de Brasília, projetos literários no DF e iniciativas educativas. É autor premiado nos Estados Unidos. Criou prêmios, programas e ações voltadas ao direito autoral, ao livro e à democratização da literatura.
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