A saúde mental é um privilégio? O que o “Janeiro Branco” esquece de te contar
Coluna Desatar Nós com William Figueiredo

Enquanto o mundo fala de “paz interior” e “resiliência”, a abordagem decolonial pergunta: como manter a sanidade quando a própria estrutura social adoece você? Nesta semana convido o leitor para olhar por outro ângulo para o problema da saúde mental.
Bom, estamos na metade do “Janeiro Branco”. As redes sociais estão inundadas de posts com fitinhas brancas, influenciadores sugerindo práticas de mindfulness, dicas de respiração para ansiedade e exortações para que “priorizemos nossa paz”. A campanha é válida e necessária. A conscientização sobre a saúde mental nunca foi tão urgente.
Sim é urgente!
No entanto, preciso fazer o papel do “convidado incômodo” nesta festa. Precisamos perguntar: Para quem é esse “branco” do Janeiro Branco?
Existe uma linha tênue entre a conscientização e a alienação. Quando tratamos a ansiedade, a depressão e o burnout apenas como “desequilíbrios químicos” ou “falta de inteligência emocional”, corremos o risco de privatizar um sofrimento que é, na verdade, público e social.
Para a grande maioria da população brasileira, negra, periférica, trabalhadora e historicamente marginalizada, a “dica” de desacelerar é inútil.
A psicanálise tradicional, nascida na Europa vitoriana, muitas vezes focou seus esforços no “drama familiar”: o complexo de Édipo, a relação com a mãe, a autoridade do pai. Tudo isso continua valendo e é fundamental na clínica. Não jogamos nada fora, tudo está incluso na formação do sujeito.
Mas a Psicanálise a partir do olhar Decolonial dá um passo seguinte. Ela entende que, no Brasil, existe um “Pai” terrível e violento que não mora dentro de casa, mas na estrutura da sociedade.
Podemos chamar isso de Trauma Colonial.
Para que não reste dúvida de que não estamos falando, a própria Organização Mundial da Saúde (OMS) valida essa visão através do conceito de Determinantes Sociais de Saúde (SDOH).
As condições em que uma pessoa nasce, cresce, vive, trabalha e envelhece têm um impacto muito maior sobre sua saúde mental do que a genética ou o “pensamento positivo”. Estudos epidemiológicos robustos demonstram que, frequentemente, o seu CEP (seu endereço) é um preditor mais preciso da sua expectativa de vida e saúde psíquica do que o seu código genético.
Quando falamos de SDOH, estamos falando de variáveis concretas: acesso a transporte digno, segurança habitacional, segurança alimentar, letramento racial e exposição à violência urbana.
Na clínica, ignorar esses determinantes é cometer um erro grave. Se um paciente apresenta insônia crônica porque mora em uma área de risco, tratar isso apenas com medicação ou higiene do sono, sem reconhecer a causa social, é enxugar gelo. A Psicanálise Decolonial, ao integrar os SDOH na escuta, deixa de tratar a reação (o sintoma) como se fosse a doença, e passa a reconhecer que a doença é, muitas vezes, a própria precarização da vida.
O racismo estrutural, a desigualdade econômica brutal e a insegurança alimentar não são apenas “problemas sociais”; são fatores de adoecimento psíquico grave.
Como pedir “calma” para quem não sabe se terá emprego no mês que vem? Como falar de “autoestima” para uma mulher negra que liga a TV e não se vê representada em lugar nenhum a não ser na cozinha ou na página policial? Como sugerir “meditação” para quem leva três horas no transporte público lotado, sob estado de hipervigilância constante?
Se a terapia ignora essa realidade, ela não está curando; ela está apenas tentando adaptar o indivíduo para que ele continue sendo uma engrenagem silenciosa de um sistema injusto desde a origem.
Neste contexto, palavras como “resiliência” tornam-se perigosas. Frequentemente, quando a sociedade pede que uma pessoa negra ou pobre seja “resiliente”, ela está dizendo: “Aguente em silêncio e continue produzindo”.
O resultado disso no consultório é devastador. Pacientes exaustos, não porque “trabalham demais” por opção, mas porque sentem que precisam ser duas vezes melhores para ter metade do reconhecimento.
Essa fadiga não se resolve com férias. É uma fadiga ontológica, um cansaço de ser. O corpo cobra a conta através da hipertensão, da gastrite nervosa, das crises de pânico. E a pessoa ainda se culpa: “Eu deveria ser mais forte”.
Não. Você não deveria. Você é humano.
O que propomos na nossa prática clínica não é uma terapia que “milita” no lugar de analisar, mas uma análise que escuta o contexto. É a proposta da etnopsicanálise que faz uma articulação entre psicanálise e antropologia e compreende o inconsciente e o sintoma como estruturados pela cultura, e não universais abstratos.
Quando um paciente chega com angústia, nós investigamos suas causas internas, sim. Mas também validamos a dor que vem de fora.
- Reconhecer que o medo da polícia não é paranoia, é realidade.
- Reconhecer que a exaustão da mulher mãe solo não é falta de organização, é sobrecarga estrutural.
- Reconhecer que a tristeza de não pertencer não é depressão endógena, é efeito do racismo.
Quando o paciente entende que a culpa não é (só) dele, um peso sai de suas costas. Ocorre a desculpabilização. Só então, com esse peso removido, podemos trabalhar o que é de fato responsabilidade do sujeito: “Dado que o mundo é hostil, como eu posso construir, apesar disso, uma vida que valha a pena? Como posso criar meus próprios quilombos afetivos?”.
Saúde mental não pode ser um privilégio de quem pode pagar retiros espirituais. Saúde mental é, antes de tudo, o direito de narrar a própria história sem ser interrompido pela violência do Outro (o grande Outro no sentido lacaniano).
Se você sente que a sua dor não “cabe” nos consultórios tradicionais, que as dicas de Instagram não conversam com a sua realidade e que você precisa de uma escuta que entenda a complexidade de ser quem você é no Brasil atual, saiba: existe lugar para você.
A psicanálise a partir da etnopsicanálise não promete que o mundo vai mudar amanhã. Mas que você não precisará mais enfrentar esse mundo achando que o problema é você.
É sempre tempo de desatar nós e olhar para as encruzilhadas do Real.
Prof. Dr. William Figueiredo é filósofo, psicanalista e educador físico. Pós-doutor em Psicologia pela Universidade Federal de Uberlândia e doutor em Ciências da Religião. Especialista em Psicopatologia e Bem-Estar Social pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa, atua com atendimento clínico online, supervisão e assessoria em desenvolvimento humano e educacional. Atua como professor colaborador na Pós-graduação da Universidade Metodista de São Paulo. Ministra palestras, formações e workshops voltados à escuta qualificada, saúde mental e processos educativos com ênfase em: Psicanálise, Neuroeducação, Aprendizagem Tangencial, IA e Educação Socioemocional.
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A jornada analítica começa com uma primeira escuta. Se você está pronto para ir além dos sintomas e entender as raízes do seu sofrimento, agende uma conversa preliminar de acolhimento (online ou presencial).
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