Coluna Crônicas da Cidade com Thiago Maroca

A Batalha do Material Escolar

Coluna Crônicas da Cidade com Thiago Maroca

Para quem tem filhos, após o merecido descanso dos professores – porque, sejamos sinceros, os pais nunca têm férias –, chega o momento da guerra anual: a compra do material escolar, e pior, com a criança a tiracolo. Não há nada que grite “arrependimento” mais alto do que entrar em uma papelaria com os pequenos. Temas, cores, tendências, canetinhas coloridas… e aquelas ‘novas necessidades’ que surgem do nada, como canetas douradas para folhas pretas pautadas, que sabemos, jamais serão usadas. Lembro que, na época das minhas irmãs, a febre era comprar pilhas de papel de carta que também não seriam enviadas a ninguém. A Tríade do Consumo

1. A Mochila – O Inimigo nº 1

O primeiro grande inimigo é a mochila. Com ou sem rodinhas, acompanhada da lancheira combinando e de algum acessório que brilha ou pisca, ela tem um preço que se assemelha ao financiamento de um apartamento. A mochila é a vitrine da personalidade da criança, exibindo temas infantis, natureza ou bichos, mas sempre finalizando com o desenho animado da moda. É incrível como o desenho, que assistimos na TV, se torna um agente capitalista na vida real. Não importa a origem – China ou Anápolis –, o preço é sempre exorbitante e a durabilidade nem sempre garante o ano letivo, considerando que todo dia é uma corrida sangrenta para ver quem chega primeiro na sala. A parte mais esperada já passou.

2. Os Acessórios e a Venda Casada Invisível

Em seguida, vêm os acessórios que, ingenuamente, julgamos ser mais em conta: lápis, borracha, apontador, estojo, cola, cartolinas e papel crepom. O caderno é um tópico sensível: precisa combinar com o desenho da mochila, numa espécie de pilantragem de venda casada invisível. O dono da papelaria só enriquece nesta época; depois do Carnaval, a loja vira um depósito de poeira e os mesmos produtos entram em liquidação.
Por último, a Agenda. Esta é obrigatória e precisa ser comprada na escola, ou seja, outra fortuna. Tenho a impressão de que o papel é extraído do Nilo por alquimistas, pois o preço é sempre o triplo de qualquer agenda que se encontre no mercado. Mas a escola exige a agenda “fabricada por eles”. Haja limite no cartão de crédito!

3. Livros Didáticos – O Combustível do Lucro

Por fim, mas não menos importantes, os livros didáticos, o verdadeiro combustível para a educação da criança, e também para o lucro de alguns. O custo desses livros equivale ao seguro mais a revisão do carro. Se fôssemos comparar o valor, seria como comprar um terço de um Bitcoin em reais.
Eu, como leitor assíduo, paguei no máximo R$ 112 por um livro ‘sério’, mas desde que descobri os sebos físicos e virtuais, encontro tudo por um preço acessível. Os livros escolares furam a bolha de Wall Street. O dono da papelaria e o dono da editora viajam para o Caribe logo após o início das aulas. Nunca vi um dono de editora; devem morar todos em Alphaville, financiados pelos meus quase dois mil reais que lhes dou anualmente.
Comparo os livros do meu filho com obras sérias como o Vade Mecum ou um tratado de Anatomia Geral e tenho a sensação de que a alfabetização é mais cara que todas as profissões adultas (e no fundo, é mesmo). A escola adota o método de apostilas justamente para eliminar a chance de você comprar o livro usado do ano anterior de outro pai, o que me deixa ainda mais irritado.

Enfim, as aulas começam. Um novo ano de muito aprendizado, novos amigos e, ufa, ainda há tempo e disposição para fazer todos os cartazes e brinquedos recicláveis ao longo do ano, sempre de bom humor. Pelo menos isso a gente não precisa parcelar no cartão.

Fui.
Boa volta as aulas!

Thiago Maroca é pai, escritor, cineasta e um homem que sofre com as dividas do inicio do ano

Manda um oi: thiagomaroca@gmail.com / @thiagomaroca

Paula Rocha

Editora chefe do Jornal Diário do Entorno

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