O Primeiro Ano de Vida (e as Aventuras Iniciais)
Coluna Crônicas da Cidade com Thiago Maroca

O nascimento foi um evento repentino, mas esperado. O pai acompanhava o crescimento da barriga, embora a ciência da época não permitisse uma data precisa. E assim, na madrugada do dia 25, o parto ocorreu no celeiro. Ele improvisou uma manjedoura, usou um cobertor e conseguiu um candeeiro para iluminar, com uma luz mais suave que o brilho das estrelas lá fora. De repente, surgiram três homens trazendo presentes valiosos: Incenso, Mirra e Ouro. O bebê era lindo de se ver.
A chegada da criança inundou o lar de alegria. Os olhos da mãe e do filho irradiavam felicidade e as pessoas se aproximavam, atraídas pela sensação de paz e contentamento que o menino transmitia.
Os marcos vieram em seguida: os primeiros dentinhos, os primeiros passos, as primeiras sílabas. Maria se orgulhava de exibir o filho por onde passava. Ele distribuía gargalhadas gostosas, ensaiava um “Mãe” ou “Pai” e, na rua, evitava sujar as fraldas de pano.
Para a celebração de um ano, Maria havia pedido a José que não fizesse alarde. No entanto, José, que não sabia guardar segredo, espalhou por toda a Galileia que o dia 25 de dezembro era o aniversário da criança. O bebê era tão amado que todos transformaram a data em um momento especial de reunião familiar.
Mas as surpresas não pararam no primeiro ano. Logo ele começou a andar e, ainda criança, agia como um mágico, impressionando os colegas. Certa vez, ficou de pé sobre a água, enquanto os amigos tentavam em vão encontrar o apoio que ele usara no fundo do rio. Em dias quentes, durante partidas de futebol, bastava tocar na moringa para a água ficar gelada – um truque discreto que ninguém questionava, afinal, uma água fresca não se nega.
O menino também mostrava sua índole protetora durante as brincadeiras no bairro. Embora gostasse de estar com os amigos, ele reprovava quando eles atiravam pedras em sapos ou usavam estilingues contra grilos e pássaros. Sabendo-se diferente, ele simplesmente apontava a mão, imaginava o animal revivendo e pronto, o bicho estava salvo. Enquanto isso, ele desviava a atenção dos colegas para novas brincadeiras que não envolvessem perseguir animais.
Em outro dia, resolveram ir tomar banho no Rio Jordão, levando consigo apenas um pedaço de pão. Foi então que o menino tirou o pão de sua bolsa e ele começou a se multiplicar, sem parar. Havia alimento em abundância para que pudessem se divertir o dia inteiro no rio. A presença do garoto era tão serena que a sensação era de que até as águas ficaram mais calmas.
Na volta para casa, os vaga-lumes iluminavam a estrada, e as estrelas piscavam como em código Morse. O rapazinho era especial. Em casa, os pais e vizinhos o aguardavam com um bolo simples, mas feito com o coração.
Com a boca cheia de pão e sem parar de mastigar, Maria pediu ao filho que abrisse a boca para ver o que ele comia com tanto apetite. Nesse instante, através do céu da boca do menino, Maria vislumbrou o universo e compreendeu que tinha um filho mais que especial, um ser abençoado.
Feliz Aniversário, Jesus.
Feliz Natal!
Thiago Maroca é escritor, cineasta e educador. Membro da Academia Valparaisense de Letras,sociologo e mestre em educação. Aprendeu a amar o Natal com a chegda do Théo, seu filho.
Manda um oi: thiagomaroca@gmail.com / Thiago Maroca



