Coluna Desatar Nós com William Figueiredo

A cegueira do “Homem de Bem”

Coluna Desatar Nós com William Figueiredo

O homem de bem é um cadáver mal-informado. Não sabe que morreu. Dizia Nelson Rodrigues.
O termo “homem de bem” tem uma história complexa no Brasil, com raízes que se estendem por séculos, mas que ganhou um novo fôlego e uso na política recente.
Machado de Assis é um dos autores que mais satiriza essa figura. Em suas obras, o “homem de bem” é frequentemente um indivíduo que se preocupa com as aparências, com a moralidade superficial e com o que a sociedade pensa dele, enquanto, no íntimo, pode ser egoísta, ambicioso ou cruel. Ele usa a máscara de “homem de bem” para justificar suas ações e manter seu status.
Um exemplo é o conto “a carteira” sobre um advogado endividado, Honório, que encontra uma carteira cheia de dinheiro.
Enfrentando um dilema moral, ele luta para decidir se a devolve ou não. Sua consciência o leva a restituir a carteira ao seu dono, que é, coincidentemente, seu amigo Gustavo. No final, a “virtude” de Honório é desmascarada quando ele descobre que Gustavo tem um caso com sua esposa, revelando a hipocrisia e a ironia que cercam a vida de um suposto “homem de bem”.
A origem do conceito remonta ao período do Império e início da República, entre a segunda metade do século XIX e o começo do século XX. Nessa época, a elite intelectual e política brasileira, buscando “civilizar” a nação e transformá-la em algo parecido com os países europeus, idealizou o “homem de bem”.
Jorge Amado, por outro lado, em romances como Gabriela, Cravo e Canela, o termo é usado para destacar o machismo e o patriarcalismo da sociedade. Personagens que se consideram “homens de bem” justificam seus atos violentos e misóginos com base em uma suposta honra, defendendo valores que o autor claramente questiona.
Esse indivíduo idealizado não era qualquer um, busca ser viril, moralizado e disciplinado. Possuía qualidades vistas como necessárias para a ordem e o progresso da sociedade. Associado à família e ao trabalho. A sua moralidade se manifestava na esfera privada, com foco na vida familiar e na domesticidade burguesa. Com privilégios e virtudes, representava uma figura de autoridade e virtude que se diferenciava da “massa” da população, considerada desorganizada e incivilizada.
O Brasil vive um momento de intensas discussões políticas e sociais, onde conceitos antigos ressurgem com novos significados. Um dos mais curiosos é o do “homem de bem”. O termo, que antes era uma idealização da elite do século XIX, hoje é um rótulo popular que separa “nós” dos “outros”. O problema é que essa separação, muitas vezes, leva a uma cegueira conveniente diante dos desafios mais urgentes do país.
O “homem de bem” da atualidade se define por uma série de virtudes, muitas vezes autoproclamadas. Ele é trabalhador, defensor da família, honesto, e se orgulha de não se misturar com “gente de má índole”. Sua moral é a bússola que orienta suas opiniões, e a partir dela, ele julga o mundo. Ele se indigna com a corrupção de um lado, mas pode fazer vista grossa para a de outro, se o corrupto estiver do seu lado político. Ele defende a ordem e a segurança, mas pode tolerar excessos da polícia, se a violência for contra quem ele considera “bandido”.
Essa cegueira não é acidental. É, em grande parte, seletiva. A complexidade do país, com sua desigualdade histórica, violência sistêmica e problemas crônicos, é simplificada em uma batalha entre o “bem” e o “mal”. Essa visão maniqueísta é mais confortável do que confrontar a realidade. É mais fácil culpar um político, um grupo social ou uma ideologia do que admitir que os problemas são multifacetados e exigem soluções complexas.
A moralidade do “homem de bem” não deve ser vista apenas como uma virtude, mas como uma ferramenta de exclusão. O conceito freudiano de “narcisismo das pequenas diferenças” é fundamental para isso.
Essa ideia sugere que as pessoas constroem suas identidades e solidificam seus grupos não pela semelhança, mas pela oposição a pequenas distinções. Em vez de valorizar o que nos une, nosso ego busca o que nos separa do “outro” para afirmar uma superioridade.
No discurso do “homem de bem”, isso se manifesta de forma gritante. Sua moralidade não é um guia universal, mas uma régua para medir e excluir. Ele se define em oposição: o “cidadão de bem” versus o “marginal”, o “trabalhador honesto” versus o “vagabundo”, a “família tradicional” versus o que ele considera “degenerado”.
A cegueira seletiva, portanto, é um sintoma desse narcisismo. Ao condenar o vizinho por uma pequena falha moral, ele se sente superior e protegido, mas se torna incapaz de enxergar problemas sistêmicos maiores, como a desigualdade, que não se encaixam em seu julgamento simplista. O “homem de bem” se comprazem na exclusão, e essa satisfação narcísica é tão poderosa que o impede de ver a realidade em sua totalidade.
O “homem de bem” pode ser visto não como um ideal de virtude, mas como uma identificação imaginária. Em outras palavras, essa figura é um “eu” idealizado, uma imagem que a pessoa constrói para si mesma e para os outros. Essa imagem é formada pelo que se espera dela e pelo que ela acredita que deveria ser, uma máscara de moralidade que esconde as contradições e desejos inconscientes.
É o que Lacan chamaria de gozo, um conceito que vai além do prazer e se relaciona com a satisfação paradoxal que se obtém na dor, no sofrimento ou na proibição. O “homem de bem” pode sentir um gozo perverso em se sentir superior, em julgar o outro e em manter a ordem social, mesmo que essa ordem seja injusta. A sua moralidade não é um fim em si, mas um meio para manter uma posição de poder e uma identidade sólida, blindada contra as falhas e imperfeições.
Essa postura, por sua vez, leva a uma recusa simbólica da realidade. A complexidade do mundo, com suas injustiças e ambiguidades, é rejeitada porque ela perturba a imagem idealizada. Ao invés de lidar com as contradições, o “homem de bem” prefere a certeza de seu próprio julgamento, mesmo que essa certeza seja falsa. Essa recusa simbólica é a verdadeira origem da cegueira de que falamos: ele não quer ver a realidade, pois a realidade o forçaria a confrontar as rachaduras em sua própria máscara de “bem”. Ele prefere a tranquilidade de sua própria moralidade do que a dura verdade do mundo.
Enquanto o “homem de bem” se preocupa em defender seus valores, o Brasil segue com seus desafios. A fome, por exemplo, não escolhe lado político. Ela afeta milhões de famílias, independentemente de quem esteja no poder. O desmatamento, que atinge o meio ambiente e a economia, não se encaixa nas categorias de “bem” ou “mal”, mas é um problema real que exige atenção. A falta de acesso à educação e à saúde de qualidade não é uma questão ideológica, é uma falha do Estado que afeta a todos.
A cegueira do “homem de bem” é, no fim das contas, uma forma de escapismo. É uma recusa em ver que o país é feito de cinzas, de contradições, e que o bem e o mal coexistem em todos os lugares. A verdadeira virtude não é a de julgar o outro, mas a de se engajar com a realidade, de reconhecer os próprios preconceitos e de buscar soluções que beneficiem a todos, mesmo aqueles que pensam de forma diferente.
O Brasil precisa menos de rótulos e mais de diálogo. Precisa menos de “homens de bem” que se fecham em suas bolhas e mais de cidadãos que olham para a realidade com coragem e se dedicam a construir um país mais justo e equitativo para todos.
É sempre tempo de desatar nós e praticar cidadania!

Prof. Dr. William Figueiredo é filósofo, psicanalista, pós-doutor em Psicologia pela Universidade Federal de Uberlândia e doutor em Ciências da Religião. Especialista em Psicopatologia e Bem-Estar Social pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, atua com atendimento clínico online, supervisão e assessoria em desenvolvimento humano e educacional. É também professor colaborador na Universidade Metodista de São Paulo e no Instituto Ânima, como formador em Educação Socioemocional. Ministra palestras, formações e workshops voltados à escuta qualificada, saúde mental e processos educativos.

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